Alugamos a casa por uma semana. O dono mostrou tudo, mas avisou: a porta no fim do corredor não podia ser aberta. Nem deixou a chave, para evitar tentações — “como Adão e Eva”, brincou.
Como nossa ideia era passar o dia na praia e o fim de tarde nos bares, a casa serviria apenas para dormir. A porta no fim do corredor não faria a menor diferença, aberta ou fechada.
Acordei, de ressaca, com um ruído alto, desagradável. O barulho vinha das rodas de plástico do velocípede do menino mais novo, em atrito com a areia trazida da praia e as tábuas do assoalho. Briguei, mas logo achei graça. Nos dias seguintes, deixei estar: criança precisa gastar energia.
No dia da partida, ele acordou cedo e, às cinco da manhã, já fazia piruetas no corredor escuro. Foi então que a porta proibida se abriu, rangendo nas dobradiças enferrujadas. Um vulto surgiu no portal.
Com a aparição, o menino pulou do brinquedo em movimento, caiu sentado no chão e se levantou com agilidade surpreendente. Entrou chorando no nosso quarto e se enfiou entre nós.
Antes que eu reagisse, apareceu um homem, só de calças, corpo coberto de pelos, olhos injetados de vermelho. Trazia o velocípede na mão. Jogou-o no meio do quarto e disse, irritado:
— Saiam dessa casa agora e levem essa coisa embora. Só vou avisar desta vez!
Sem discutir, recolhemos tudo às pressas e partimos. Ninguém falou nada durante a viagem, enquanto o menino chorava atrás, na cadeirinha.
Quando o trauma passar, veremos se vamos dar queixa à polícia ou ao “Reclame Aqui”.
[Crônica XCVI/2026]

