
O menino chutava o encosto da minha poltrona e o pai não falava nada (Imagem gerada por IAgo Copilot/Prompt JCarlos)
Eu já estava na segunda parte da viagem. Tinha embarcado às seis da manhã, feito uma conexão e ainda faltavam umas oito horas de estrada, quando um homem e um menino de uns cinco anos embarcaram e se sentaram nas poltronas atrás de mim.
Mal o ônibus pegou a estrada e o garoto começou a chutar o encosto do meu banco. Pensei que fosse acidental, uma mudança de posição, a animação de ver alguma coisa pela janela, mas logo percebi que os chutes tinham ritmo e frequência.
Olhei para trás com cara feia (não tenho outra) e nem pai nem filho se deram por incomodados. Os chutes continuaram.
Perdi a paciência, virei-me e falei para o homem:
— O senhor pode pedir ao garoto para parar de chutar? Quero dormir, e levando pancadas nas costas não consigo.
O sujeito fez cara de que não havia nada errado, mesmo com o menino chutando a poltrona enquanto eu falava.
— O senhor não vai mandar ele parar, não?
— Os incomodados…
Interrompi a frase mal-educada dizendo que, se houvesse outro lugar vago, eu já teria me mudado.
— Então vamos sair na porrada — convidou.
O cara era desses “ratos de academia”: bombardino, tórax musculoso, cintura e pernas finas. Usava camisa de número menor para ressaltar o muque. Brigar com ele? Eu não veria nem de onde viria a primeira porrada.
Falei sério:
— Não preciso brigar. Vou rogar uma praga em vocês dois que não esquecerão de mim nunca mais.
— Não acredito nisso, faça o que quiser — respondeu sorrindo.
Olhei firme, fiz um gesto vago com a mão na direção deles e me sentei. Houve apenas mais um chute nas minhas costas, seguido do estalo de um tapa e do choro do menino. O pai disse alguma coisa em voz baixa e pude, enfim, cochilar em paz.
Foi um blefe que deu certo. Não me pergunte como.
[Crônica XCIII/2026 – Texto originalmente publicado no Jornal do Cool do Mundo – Edição nº 24, de 25 de abril de 2026]
