23 de abril de 2026

Memórias de uma chegada

Por José Carlos Sá

O assistente IAgo Copilot sintetizou a crônica em imagem

No dia 13 de abril de 1986 desembarquei em Porto Velho, contratado por 15 dias para diagnosticar o que estava acontecendo no Departamento de Comunicação do Governo do Estado de Rondônia.

Fui recebido no dia seguinte pelo governador Ângelo Angelin — um ex-professor —, que reclamava dos releases distribuídos à imprensa: traziam erros básicos de ortografia, e os jornais publicavam fac-símiles (o “print” da época), destacando os deslizes gramaticais e ortográficos, sempre lembrando que se tratava de textos oficiais.

Ele acreditava que a assessoria de imprensa estava sabotando seu governo, enviando textos com erros propositais. Angelin exercia um mandato-tampão, entre o último governador nomeado pelo regime militar e as eleições previstas para 1987.

Não precisei de muito esforço para perceber que a maioria dos colegas do departamento carecia de experiência em redação. Muitos haviam saído diretamente das faculdades para a assessoria, onde também faltava alguém que os orientasse ou revisasse os textos antes da distribuição.

Nas conversas com jornalistas e pessoal de apoio, logo percebi que havia uma figura temida por todos. Editor do jornal Alto Madeira, atendia ao telefone de forma peculiar: em vez do “alô” convencional, perguntava “Quem morreu?”. Isso causava desconforto a quem precisava transmitir um convite para coletiva ou solicitar espaço para uma nota oficial.

Suspeitava-se ainda que era ele quem pegava os boletins do governo, corrigia-os com caneta vermelha, fotografava e publicava ao lado do texto reescrito.

Pouco tempo depois fui apresentado a esse jornalista, que se autodenominava “repórter da província”. Trabalhamos juntos e somos amigos até hoje.

Foi graças ao amigo Lúcio Albuquerque que fui para Rondônia, onde vivi 34 anos, consolidei minha profissão e a quem devo gratidão.

Há males que vêm para o bem.

[Crônica XCII/2026]