
Pedro não sabia os detalhes da morte de Jesus e se emocionou muito (Imagem criada por IAgo Copilot/Prompt JCarlos)
– Vocês vão comemorar o quê? A morte de Jesus Cristo? Não bastava terem machucado, humilhado e pregado ele na cruz? Agora querem fazer churrasco e pagode justamente no dia de lembrar aquela dor toda? Eu não vou, não.
Olhei para o meu marido, que desligou o celular e o arremessou para o outro lado da sala. Tínhamos acabado de assistir a um filme na tevê quando ele recebeu a ligação. Ficou nervoso, quase furioso, e jogou o aparelho contra a parede. Espero que não tenha quebrado.
Somos casados há dois anos. Conheci o Pedro quando eu fazia trabalho missionário, distribuindo folhetos com trechos do Evangelho nas casas. Ele nos recebeu, ouviu o pastor e demonstrou interesse em visitar a igreja. Fizemos amizade, noivamos e logo nos casamos.
Pedro é reservado. Foi a primeira vez que o vi perder o controle, falando alto ao telefone, quase gritando. Talvez tenha sido influência do filme que vimos naquela tarde de quinta-feira santa: A Paixão de Cristo, do Mel Gibson, aquele mesmo do Mad Max. Pedro chorou muito. Percebi então que ele não conhecia em detalhes a história da crucificação.
Eu ia comentar sobre o filme, mas o telefone tocou. A conversa deixou-o transtornado. Esperei que se acalmasse para perguntar a razão de tanta raiva.
– Amor, o que aconteceu? Quem era ao telefone? Quer que eu veja se o celular quebrou?
– Que falta de respeito! Amanhã é sexta-feira santa. Já ouvi dizer que não se come carne nesse dia, e minha irmã me liga convidando para ir ao sítio dela. Vão fazer churrasco e ainda contrataram um grupo de pagode para tocar o dia inteiro. Que falta de respeito! O homem – nós vimos no filme – foi humilhado, apanhou de todo jeito, pregaram ele na cruz… e me chamam para beber cerveja, cachaça e dançar pagode no dia da morte dele. É demais. Eu posso ter sido um zero à esquerda a vida toda, mas agora que conheço essa história não quero mais saber de festa na sexta-feira da paixão.
[Crônica LXXXIV/2026 – Texto publicado originalmente no Jornal Cool do Mundo – Edição 22, de 11 de abril de 2026]
