
Magdaleno já avisou que o coração não tem idade, mas tem prazo de validade (Imagem gerada por IAgo Copilot)
Desempregado, passei dias atrás de uma vaga em qualquer função. Mas sempre batia na mesma barreira: a tal da PDI (*orra da Idade). Não adiantava currículo, experiência, disposição para trabalhar. A entrevista era só para cumprir tabela, e logo me dispensavam. Etarismo.
Um dia me lembrei do trabalho temporário como recenseador do IBGE, no Censo de 2022. Apliquei questionários a dezenas de idosos que viviam sozinhos. Aquilo ficou martelando na cabeça: será que não dava para transformar essa informação em oportunidade de negócio?
Encarreguei o ChatGPT de listar serviços que poderiam ser oferecidos a idosos solitários. Fui anotando prós e contras, descartando ideias já saturadas pela concorrência. No fim, cheguei a uma proposta ousada: um aplicativo de celular que ajudasse idosos a encontrar companhia mútua para os últimos anos de vida, se assim desejassem.
Antes de lançar o produto, resolvi testar e usei minhas redes de amizade para localizar homens e mulheres, a partir dos 65 anos, interessados em companhias, fosse do mesmo gênero ou não. Listei vinte pessoas e apliquei, pessoalmente, um questionário: perfil esperado do companheiro ideal, se queriam dividir casa, situação de saúde, parentes, finanças, e o que realmente buscavam.
Entre as respostas, chamou atenção a do senhor Magdaleno (Fala “Madaleno, mas escreve com um ‘g’ depois do primeiro ‘a’”), de 86 anos. Ele disse que queria apenas companhia para atravessar a velhice. Os filhos já tinham suas vidas, e ele estava separado da esposa.
— Tenho minha aposentadoria, que é pouca, mas dá para os remédios e a comida. Mas ela tem que ter o dinheirinho dela, para as coisinhas… Mulher gosta de comprar coisinhas…
— O senhor faz questão da idade? A candidata deve ter, mais ou menos, quantos anos?
— Ah, deixa eu ver… Pode ter 65, 70… Se for bem conservadinha, pode ter até 80 anos!
No fim, descobrimos que o amor na velhice também vem com etiqueta: validade enquanto estiver conservadinha.
[Crônica LXXXIII/2026]
