
Ouvíamos rock no volume máximo possível e mãe pedia para morrer logo (Ilustra criada por IAgo Copilot / Prompt em homenagem ao cartunista Robert Crumb JCarlos)
As décadas de 1970 e 1980 ficaram gravadas na minha memória como o período da minha evolução musical. Deixei de ser monotemático para me tornar um ouvinte eclético.
A transição começou nos festivais da TV Record, mas eu me mantive fiel a Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Ben, Nara Leão, MPB-4, Quarteto em Cy, Toquinho e Vinicius, entre outros nomes da chamada MPB. As músicas que meus pais ouviam passaram a ser, para mim, “música de velho” — aquelas para as quais eu torcia a orelha, o equivalente sonoro de “torcer o nariz”.
Um dia, meu irmão Paulo (o Paíto) me apresentou à Rádio Cultura de Belo Horizonte. Foi lá que ouvi Caetano Veloso cantando Asa Branca, de Luiz Gonzaga; depois Maria Bethânia interpretando Negue, que eu conhecia na voz de Nelson Gonçalves — aquele que meu pai imitava no chuveiro. Também ouvi Gal Costa em Volta, de Lupicínio Rodrigues. Todas essas músicas, que eu classificava como ultrapassadas, estavam sendo cantadas pelos meus ídolos.
Parei e pensei: alguma coisa estava errada e o errado era eu.
O segundo choque de realidade veio com o tock’n roll. A Rádio Cultura transmitia programas com bandas que faziam sucesso no mundo inteiro. Foi nessa fase que Paíto e eu começamos a investir em discos de vinil e em um equipamento de som: um 3-em-1 da Gruding, o que havia de mais moderno dentro das nossas condições financeiras, adquirido em suaves prestações.
Um grande avanço, pois fizemos a transição de uma vitrolinha mono, que mãe comprou para nós de segunda mão, para um equipamento estéreo!
Nosso quarto virou uma verdadeira embaixada do rock progressivo, do alternativo, da black music e do pop. As caixas amplificadoras vibravam com os graves e agudos das guitarras, misturados às vozes de Michael Jackson, Mick Jagger, Ozzy Osbourne, Alice Cooper, Robert Plant, Freddie Mercury, entre tantos outros.
Foi durante uma dessas sessões de rock, ouvindo Led Zeppelin no volume máximo que nosso som doméstico permitia, que minha mãe cunhou uma frase inesquecível:
— Meu filho, me mata logo e acaba com essa tortura lenta!
Mãe sobreviveu ao rock. E a nós também.
[Crônica LXXIII/2026 – Texto publicado originalmenente no Jornal do Cool do Mundo – Edição 21 – Vilhena, RO – 04/04/2026]
