04 de abril de 2026

Nem anjo, nem nada

Por José Carlos Sá

No sentido horário: Cruzes a serem queimadas na cerimônia do Fogo Santo, na Sexta-Feira da Paixão; Nem anjo nem nada; Mãe (roupa amarela) na coroação de Nossa Senhora; Padre e diácono prostrados no chão diante do altar, antes da celebração da Paixão do Senhor; Fogo consumindo os papéis com os pecados dos fieis (Fotos 1, 3 e 4, JCarlos; 2 – Acervo JCarlos; Ilustra IAgo Copilot)

Há pouco tempo comecei a assistir às missas na Comunidade do Senhor Bom Jesus, aqui no bairro. Mais recentemente, passei a integrar a equipe de liturgia. Tenho vivido experiências muito interessantes em cerimônias especiais das quais nunca havia participado, apesar de ser católico “desde o nascimento”.

Não sei explicar por que nunca tinha acompanhado os rituais da Semana Santa, a começar do Domingo de Ramos. Só agora descobri a beleza simbólica da Celebração Penitencial, por exemplo, quando os fiéis escrevem seus pecados em pedaços de papel, depositam na urna do altar e, depois, tudo é queimado. Um gesto simples, mas carregado de significado.

Na Sexta-feira Santa, fui um dos leitores da “Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo João”. Uma cerimônia intensa e comovente.

Quando criança, eu também queria ser um dos anjinhos nas festas de Coroação de Nossa Senhora, nas quais minhas irmãs e sobrinhas já participaram. Nossa mãe organizava os eventos na igreja e costurava as roupas das meninas lá de casa. As asas, lembro bem, eram alugadas.

Encontrei uma foto de 2002 mostra minha mãe, então com 72 anos, entre outras mulheres, na “Coroação de Nossa Senhora no Dia das Mães, pelas mães idosas do Cantinho da Suave Idade”.

E eu? Nunca consegui ser nem anjinho de procissão…

Quando fui convidado para participar da cerimônia da Paixão, fiquei animado: “agora é a minha vez”. A leitura da Paixão de Jesus Cristo segundo João (Jo 18,1-19,42) é dividida entre várias personagens: O narrador, o padre como Jesus, o diácono como Pedro, além de Caifás, Pilatos, empregados do Sumo Sacerdote, guardas e a assembleia.

Na distribuição dos papéis, me disseram:

— Você vai ser o guarda. Só precisa dizer: “É assim que respondes ao Sumo Sacerdote?”

Concordei, levei o folheto para treinar em casa e me preparar para o momento de “brilhar” em minha primeira participação – vamos dizer – teatral.

Mas toda a animação se desfez quando percebi que o guarda que eu faria, antes de falar, dava uma bofetada em Jesus. 

Logo pensei: “Será que joguei pedra na cruz?” Eu, que sonhava em ser anjinho de procissão, acabei promovido a guarda que esbofeteou Jesus. Se isso não é prova de que o destino tem senso de humor, não sei o que mais seria.

[Crônica LXXII/2026]

Tags

Caifás Igreja Católica Jesus Cristo Pilatos Semana Santa 

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