02 de abril de 2026

Apocalipse em Brasília

Por José Carlos Sá

Foi passar o fim do mundo em Brasília e só teve uma overdose (Imagem criada por IAgo Copilot)

“Mil passará, dois mil não chegará”. Essa frase ecoou muitas vezes nos meus ouvidos de criança. Quem a repetia era Maria, a quem eu chamava de tia e que foi criada na mesma casa que meu pai, ambos adotados ainda pequenos.

Eu ficava impressionado com a profecia, sobretudo porque vivíamos em plena Guerra Fria. Lia, sem compreender direito, as manchetes sensacionalistas da revista O Cruzeiro sobre a ameaça soviética ao Ocidente, especialmente o episódio dos mísseis em Cuba.

Era a década de 1960, ainda distante da virada do milênio, mas a imaginação corria solta: e se os soviéticos lançassem uma bomba atômica? Talvez só sobrassem as baratas para reconstruir a civilização…

Anos depois, já na virada de 1999 para 2000, outras profecias surgiram. Dessa vez, a coincidência da data redonda parecia dar mais força às palavras de Maria. Eu, no entanto, temi apenas pelo “bug do milênio”, com a possível perda de dados no celular e no computador.

Quanto ao fim do mundo, não quis nem saber: fui curtir a virada em Calama, uma vila ribeirinha entre Rondônia e Amazonas, na margem do Rio Madeira, decidido a só descobrir se o mundo acabaria no dia seguinte.

Recentemente, soube de um conhecido que também se preparou para o “fim do mundo”, mas de uma forma bem mais extravagante.

Hedisto, nome dado em homenagem a Santo Edisto, celebrado no dia de seu nascimento, trabalhava como motorista de entregas especiais. Naquela virada de ano, recebeu a missão de levar uma carga de componentes eletrônicos de São José, em Santa Catarina, até Natal, no Rio Grande do Norte. Seriam 36 horas de viagem, com pagamento generoso: o frete, mais 50% de bônus, e a promessa de dobrar o valor caso chegasse à capital potiguar na manhã de 1º de janeiro de 2000.

Tudo ia bem até que, em uma parada de estrada, Hedisto resolveu beber uma cachaça. Vieram outras doses, outras paradas, e com elas a lembrança de que o “fim do mundo” estava próximo.

Pouco depois, ao ver uma placa indicando Brasília, tomou uma decisão súbita:

— Dizem que Brasília é um lugar esotérico, ideal para ver o fim do mundo. Se vou morrer, que seja na capital mística…

Virou o carro naquela direção. Ao chegar, buscou drogas, foi para um motel e se afundou em cocaína e álcool. Não percebeu que o mundo não havia acabado. Foi encontrado em coma e levado ao hospital.

Processado pelo contratante, cumpriu pena e, mesmo após cinco anos de liberdade, ainda lamenta que o mundo não tenha terminado naquela noite. Pelo menos para ele.

[Crônica LXX/2026]