Ouvindo a música São Gonça, em uma versão com o Seu Jorge e Caetano Veloso, me lembrei de um episódio em que a letra parece ter sido feita sob medida para uma situação que vivi há muitos anos e cuja afinidade vida-música eu percebi quando conversava com uma conhecida sobre a referida música.
Quando morei em Brasília, eu frequentava o restaurante Codorna’s, que ficava perto de onde morava no bairro Sudoeste. Numa noite de segunda-feira, em que tinha voltado de Porto Velho, onde fora a serviço, a dona do lugar foi servir a minha cerveja e perguntou como eu estava. No som ambiente tocava o cd Ana & Jorge, do show de Ana Carolina e Seu Jorge, que estava fazendo sucesso naquela ocasião.
Respondi apontando para a caixa de som:
– Vivi uma experiência igual a que o Seu Jorge conta na música dele…
– Qual? Zé do Caroço? Brincou.
– Não. Aquela que diz assim: “O orelhão estava escangalhado, meu cartão tava zerado, mas você crê se quiser…”
– Ah! Depois quero saber como foi essa história.
– Não preciso contar, é só ouvir a música e me colocar no lugar do Seu Jorge, acrescentando que fui para Porto Velho com a agenda cheia de compromissos pré-estabelecidos e nos intervalos, quando era possível ligar para a namorada e marcar o encontro, deu tudo errado.
Ora ela não podia atender, quando finalmente atendia eu já não tinha mais tempo; conseguimos começar a conversar, o celular ficou sem bateria e passei para o orelhão, que estava escangalhado; depois outro e outro. Finalmente um telefone funcionando e acabaram os créditos do cartão telefônico.
O encontro só foi possível quase na hora de voltar para o aeroporto e não foi bom para ninguém.
Ficou a frase final cantada pelo seu Jorge, que eu repeti na ocasião, depois de explicar esse desencontro todo: “Mas você crê se quiser”
[Crônica LXVIII/2026]

