26 de março de 2026

Scarface de pano

Por José Carlos Sá

Memórias de costura, remendos e cicatrizes improváveis

Um remendo mais feio que o rasgado (Imagem gerada pelo IAgo Copilot/Prompt JCarlos)

Aprendi com a nossa mãe e com a minha avó Rosinha (Vózinha) os rudimentos da “costura de emergência”: como pregar um botão, fazer um reparo na barra da calça, “apertar” uma casa de botão (“boutonnière” os franceses inventaram a costura e a frescura), costurar um rasgado na perna da calça ou reparar uma calça que descosturou nos fundilhos.

Aprendemos a usar a máquina de costura de pedal e portátil para cerzir (usei os conhecimentos para brincar)  e tive lições de bordado de ponto cruz,crochê e tricô, mas não peguei o jeito.

Em algum ponto da vida em comum, a Marcela descobriu estes meus dotes ‘alfaiáticos’  e passou a pedir para que eu reforçasse um botão que quase caía da blusa, um ponto no cós da bermuda que estava descosturando, melhorar um acabamento que não foi feito na fábrica ou mesmo consertar os bichos de pelúcia com que os cachorros brincam. Faço o trabalho, reconhecendo que não fica aquela maravilha, mas resolvo o problema.

Na última visita que fizemos à mãe, em dezembro do ano passado, ela ficou feliz em saber que estou colocando em prática aquelas lições que ela me deu há tantos anos. A alegria foi tanta, que mesmo doente, me ensinou uma tal “costura invisível” e fez questão que eu demonstrasse ali, na hora, que eu tinha aprendido a  aula. Na volta trouxe reforços para a nossa caixinha de costura: “agulhas para cego”, que facilita a colocação da linha para quem tem “vista curta”, tesoura para acabamento, dedal (não aprendi a usar) e um passador de elástico.

Ontem a Marcela pediu para eu costurar o short favorito dela, que é usado em casa e que rasgou na coxa. Com dó de aposentar a peça querida, acreditou que eu poderia estender por mais algum tempo a vida útil da roupa, que já está com a data de validade vencida.

Quando vi o rasgado e o tipo do tecido no short, pensei: Missão Impossível! Mesmo assim encarei a tarefa inglória, com seriedade, embora duvidando da eficácia do remendo que faria. 

Caprichei em pontos miudinhos, imitando uma costura “overlock” e fechei todo o buraco. Ao término do serviço, o remendo ficou lembrando a cicatriz que deu ao mafioso Al Capone a alcunha de “Scarface”. Ao fazer a comparação, até pensei se não fui eu, na outra encarnação, quem costurou a cara do bandidão.

Pelo modus operandi, deve ter sido eu mesmo….

[Crônica LXV/2026]

Tags

Al Capone Costura D. Nilta Gangster Mafioso Marcela Ximenes Missão Impossível Rosinha Scarface Vózinha 

Compartilhar

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*