Ele se apresentou mostrando o passaporte e recebeu o envelope para guardar celular, chave do carro e outros objetos. Depois de lacrar o invólucro, foi se sentar na última fileira de carteiras.
Quando as provas chegaram, a fiscal se aproximou:
— O senhor precisa guardar os óculos no envelope, junto com seus pertences.
— Não posso. Eu não enxergo sem eles.
— Desculpe, mas esse tipo de óculos não é permitido. Pode conter dispositivos eletrônicos.
— Eu não enxergo sem eles.
A insistência se repetiu. A coordenadora foi chamada, depois a segurança. O homem acabou conduzido à diretoria, enquanto acionavam a Polícia Federal — afinal, tratava-se de um estrangeiro em concurso público.
Os agentes chegaram, ouviram a organização e examinaram o passaporte em busca de alguma observação sobre os óculos especiais. Um deles se aproximou:
— O senhor realmente não consegue enxergar sem esses óculos escuros, com fechamento lateral?
— Sim. Não enxergo sem eles.
— Retire-os, por favor.
— Para quê? — perguntou o homem.
— Porque estou mandando! — respondeu o agente, firme.
O homem suspirou, levou as mãos aos óculos e abaixou a cabeça. Quando ergueu o rosto, o agente à sua frente recuou instintivamente. Os olhos não tinham íris nem esclerótica: eram transparentes. Por trás deles, visível como uma vitrine, uma placa de circuitos integrados pulsava com dezenas de luzinhas vermelhas piscando.
Ninguém ficou para conferir. Todos correram.
[Crônica LIX/2026]

