Naquela noite em que encontrei bruxas de verdade no museu, nem me dei conta de que estávamos em plena Quaresma — tempo em que a crendice popular recomenda evitar festas, pois as “forças do mal” — monstros, almas penadas, lobisomens e bruxas — estariam à solta. E eu fui parar em um bruxedo!
O dia 10 foi, sem dúvida, mágico para as artes e para a própria magia. Além da abertura da exposição “Tessituras do Invisível – Desdobrando Cascaes”, reunindo obras de artistas da Associação Catarinense de Artistas Plásticos, o Museu de Arqueologia e Etnologia da UFSC (Marque) inaugurava também a mostra “Cascaes: Os Fios Originários”, com 22 obras do mestre que inspiraram os contemporâneos da Acap.
Depois de apreciar as Tessituras, subi ao terceiro andar para reencontrar Franklin Cascaes.
Entre desenhos em nanquim e grafite, esculturas em argila mostrando um freguês de fotógrafo “lambe-lambe” (quem não souber, pergunte ao professor Google), um pescador consertando rede e duas rendeiras — obras já familiares, vistas em livros ou em outras exposições — deparei-me com uma peça inédita para mim: “Nossa Senhora dos Romeiros Micaelenses”, em argila policromada.
Dois detalhes chamaram minha atenção: aos pés da santa, dezenas de carinhas angelicais; e o fato de a peça parecer ter sido queimada e pintada, o que não era característica de Cascaes. “Ele era barrista, não queimava as peças”, ensinam os amigos Osmarina e Paulo Villalva, artistas plásticos que têm muitos trabalhos inspirados na pesquisa do mestre.
Outro detalhe curioso: além de inspirar os artistas atuais, as obras de Cascaes também influenciaram a indumentária de uma convidada ao bruxedo. A “Bruxa Grande” de Cascaes se materializou na festa e transitou incógnita entre os presentes. Só eu vi.
Os Romeiros Micaelenses
O conjunto escultórico é formado por Nossa Senhora e cinco romeiros micaelenses, em argila policromada, representando Maria e os peregrinos com bastões de madeira de ponta de ferro. Uma obra do Franklin Cascaes que difere das demais esculpidas em argila ou gesso.
Naquela mesma noite, em casa, fui pesquisar sobre os tais romeiros. Descobri que a Romaria Micaelense surgiu após os violentos sismos e erupções vulcânicas que abalaram Vila Franca do Campo em 1522 e 1563, na Ilha de São Miguel, Açores. Frei Afonso de Toledo e outros religiosos interpretaram os fenômenos como punição divina e incitaram a população a penitências e procissões. Desde então, grupos de homens — e mais recentemente mulheres — percorrem a ilha a pé, no sentido dos ponteiros do relógio, visitando igrejas e ermidas de Nossa Senhora durante a Quaresma.
Cascaes testemunhou essa tradição em 1979, quando viajou aos Açores para observar a vida e os costumes dos ilhéus, comparando-os com o que documentava na Ilha de Santa Catarina e no litoral catarinense.
É por isso que gosto de frequentar museus: você sai de lá mais sabido. Se quiser, é claro.
SERVIÇO
O quê: Exposição Cascaes: Os Fios Originários
Onde: Museu de Arqueologia e Etnologia da UFSC (Marque) – 3º Andar
Quando: Até do dia 10 de julho de 2026 – De Terça a sexta-feira, das 7 às 19h
Quanto: Entrada Gratuita
[Crônica LVIII/2026]

Festa junina – jogo da moeda amarrada e casamento no sertão brasileiro – 1962 – Nanquim sobre papel-cartão (Foto JCarlos)

Sem Título ou O Mundo Transformado Numa Caveira Por Culpa da Soberbia – 1961 – Nanquim sobre papel (Foto JCarlos)

Pescador remendando rede de tucumã – Sem data – Gesso e madeira policromados, fibra vegetal e algodão (Foto JCarlos)




















