
O astronauta flutua, sozinho, no espaço das palavras – Ricardo do Rosário – Stencil e acrílico sobre tela (Foto JCarlos)
“Saudade”, “Fé”, “Sonhos”, “Esperança”, “Vazio”, “Universo”, “Força”, “Solidão”, “Lembrança” e “Vida” são os vocábulos escolhidos pelo artista plástico Ricardo do Rosário para compor o cenário em que sua personagem – um astronauta – flutua.
Como costumo fazer em visitas a exposições, primeiro deixo que os olhos percorram as obras e só depois leio o que o artista ou o curador escreveram para apresentá-las. Em alguns casos, passo a compreender o sentido do que vi; em outros, minha percepção coincide com a mensagem que o autor quis transmitir. Foi exatamente isso que aconteceu diante dos trabalhos em stencil e acrílico sobre tela expostos na Biblioteca Universitária da UFSC.
Na primeira obra que observei, encontrei a palavra “Vazio” emoldurando uma silhueta de cabeça arredondada, atravessada por fios vermelhos. Pensei: um astronauta preso a cabos de segurança ou um bebê ligado ao cordão umbilical.
Depois de percorrer todas as telas e identificar o traço comum – o fio vermelho (cabo de segurança/cordão umbilical) e os sentimentos intangíveis –, fui ler a apresentação do artista. Surpreendi-me ao perceber que havia decifrado seu recado.
O texto dizia: “(…) Este ‘ser’ [o astronauta] encontra-se isolado do mundo, sem interação social, sem amigos ou parentes. A solidão traz lembranças, e com elas vem a saudade. Mas com o passar do tempo, as memórias se perdem, e é preciso se agarrar em algo a mais para continuar. (…)”.
Enquanto escrevo esta crônica, busquei uma trilha sonora para acompanhar o processo e escolhi a versão brasileira de Starman, de David Bowie, interpretada pela banda Nenhum de Nós. Destaco o verso:
“(…) A Lua, o lado escuro é sempre igual / No espaço, a solidão é tão normal / Desculpe, estranho, eu voltei mais puro do céu (…)”
A música da banda gaúcha e a arte de Ricardo do Rosário dialogaram comigo. E, nesse encontro, senti que o astronauta das palavras também me convidava a flutuar, deixando de ser uma metáfora para a solidão e se transformando em um guia para a imaginação que voa sem levar na bagagem nada pesado.
SERVIÇO
O quê: Exposição Sentimentos – Ricardo do Rosário
Onde: Espaço Expositivo Hall de circulação da Biblioteca Universitária da UFSC – Campus Trindade
Quando: Até 30 de março de 2026 – Segunda a sexta-feira, das 7h30 às 22h
Quanto: Entrada gratuita
[Crônica LVII/2026]










