Em novembro de 1991, publiquei no jornal O Guaporé, de Porto Velho (RO), um miniconto inspirado em uma frase que um colega da turma de Jornalismo dizia nos tempos de faculdade: “Jornalista é jornalista 24 horas por dia.”
Chegou em casa na hora de sempre. Tomou banho, jantou. Vestiu o terno, abriu a gaveta, apanhou o revólver e matou a mulher com três tiros.
Saiu, cumprimentou o vizinho no elevador, pegou o carro na garagem e fez o trajeto habitual até o jornal.
Entrou, bateu o ponto, trocou duas palavras com os colegas. Sentou-se à máquina e redigiu a matéria narrando o crime que acabara de cometer. Deixou sobre a mesa do editor de polícia o que seria a manchete do dia seguinte.
Apanhou o carro e desapareceu.
Hoje, 35 anos depois daquela publicação e 45 desde que ouvi a frase, deparo-me com uma notícia no portal português Zap Aeiou, relembrando que um jornalista, na Macedônia, abusou sexualmente e matou três mulheres, noticiando os crimes no próprio jornal em que trabalhava. Os fatos ocorreram entre 2005 e 2008.
O assassino só foi descoberto quando a polícia percebeu que, nas matérias, havia detalhes das cenas que não haviam sido divulgados e só eram conhecidos pelos investigadores.
Preso, confessou dois dos crimes e, na cela, suicidou-se mergulhando a cabeça em um balde cheio de água.
Eu tenho medo dessas coincidências. E quando a Marcela diz que coincidências não existem, aí é que o medo aumenta.
[Crônica LIV/2026]


