02 de março de 2026

Overbooking rodoviário

Por José Carlos Sá

ℎℎ ̂ (Imagem gerada por IA e BN Copilot/Gemini/JCarlos – Arte final Deevid)

De tempos em tempos — coisa de uns vinte anos de intervalo — a vida me presenteia com o mesmo episódio: a venda duplicada de uma passagem de ônibus para a poltrona em que eu já estava confortavelmente instalado. E, claro, sempre aparece alguém querendo me desalojar da minha tranquilidade.

No primeiro caso, eu viajava de Porto Velho para Ji-Paraná (RO). O ônibus da Eucatur fez parada em Ouro Preto do Oeste, a apenas 40 quilômetros do meu destino. Entrou um jovem casal e o rapaz, cheio de arrogância, disparou:

– Esse lugar é meu!

– Comprei a passagem até Ji-Paraná… — respondi no mesmo tom.

O sujeito foi chamar o agente da empresa, que chegou com ar de autoridade e, sem perguntar nada, decretou:

– Você tem que levantar daí, o lugar é dele.

Mostrei o bilhete, firme:

– Minha passagem é até Ji-Paraná. Não tenho culpa da sua incompetência, que vendeu a mesma poltrona duas vezes.

O agente examinou o papel como quem procura sinais de falsificação e, sem saída, chamou o reclamante para fora do ônibus. Resultado: a moça se sentou ao meu lado e o rapaz viajou de pé, com cara amarrada, até Ji-Paraná. 

Ao desembarcar, desejei a eles uma boa continuação de viagem.

Desempate de idade

Ontem, voltando de Jaraguá do Sul (SC), revivi a cena. A diferença? Meu estado de espírito: leve, quase zen.

Em Balneário Camboriú, embarcaram duas senhoras. Uma delas se aproximou e disse:

– Poltronas 1 e 2, esse lugar é nosso.

– A poltrona 1 é minha também, até Florianópolis — respondi sorrindo.

Chamaram o motorista, que conferiu minha passagem no celular e confirmou: estava tudo certo. Antes que ele desse o parecer, e prevendo que eu tinha razão, a senhora tentou outro argumento:

– E a prioridade? Eu tenho preferência.

– A senhora quer desempatar na idade? Tenho 70 anos… — retruquei, ainda sorrindo.

Silêncio. Parecia que os outros passageiros aguardavam a resposta, mas ela não disse nada.

No fim, as duas foram acomodadas em outras poltronas — o ônibus estava vazio — e eu segui viagem rindo da senhora que preferiu ir para outra poltrona a revelar a idade.

Se tivesse pedido com gentileza, eu teria cedido o lugar sem problema. Mas na marra, mesmo com espírito leve, não funciona.

[Crônica XL/2026]

Tags

Balneário Camboriú Eucatur Florianópolis Jaraguá do Sul Ji-Paraná Porto Velho 

Compartilhar

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*