De tempos em tempos — coisa de uns vinte anos de intervalo — a vida me presenteia com o mesmo episódio: a venda duplicada de uma passagem de ônibus para a poltrona em que eu já estava confortavelmente instalado. E, claro, sempre aparece alguém querendo me desalojar da minha tranquilidade.
No primeiro caso, eu viajava de Porto Velho para Ji-Paraná (RO). O ônibus da Eucatur fez parada em Ouro Preto do Oeste, a apenas 40 quilômetros do meu destino. Entrou um jovem casal e o rapaz, cheio de arrogância, disparou:
– Esse lugar é meu!
– Comprei a passagem até Ji-Paraná… — respondi no mesmo tom.
O sujeito foi chamar o agente da empresa, que chegou com ar de autoridade e, sem perguntar nada, decretou:
– Você tem que levantar daí, o lugar é dele.
Mostrei o bilhete, firme:
– Minha passagem é até Ji-Paraná. Não tenho culpa da sua incompetência, que vendeu a mesma poltrona duas vezes.
O agente examinou o papel como quem procura sinais de falsificação e, sem saída, chamou o reclamante para fora do ônibus. Resultado: a moça se sentou ao meu lado e o rapaz viajou de pé, com cara amarrada, até Ji-Paraná.
Ao desembarcar, desejei a eles uma boa continuação de viagem.
Desempate de idade
Ontem, voltando de Jaraguá do Sul (SC), revivi a cena. A diferença? Meu estado de espírito: leve, quase zen.
Em Balneário Camboriú, embarcaram duas senhoras. Uma delas se aproximou e disse:
– Poltronas 1 e 2, esse lugar é nosso.
– A poltrona 1 é minha também, até Florianópolis — respondi sorrindo.
Chamaram o motorista, que conferiu minha passagem no celular e confirmou: estava tudo certo. Antes que ele desse o parecer, e prevendo que eu tinha razão, a senhora tentou outro argumento:
– E a prioridade? Eu tenho preferência.
– A senhora quer desempatar na idade? Tenho 70 anos… — retruquei, ainda sorrindo.
Silêncio. Parecia que os outros passageiros aguardavam a resposta, mas ela não disse nada.
No fim, as duas foram acomodadas em outras poltronas — o ônibus estava vazio — e eu segui viagem rindo da senhora que preferiu ir para outra poltrona a revelar a idade.
Se tivesse pedido com gentileza, eu teria cedido o lugar sem problema. Mas na marra, mesmo com espírito leve, não funciona.
[Crônica XL/2026]

