Há sete dias nossa mãe, Nilta, nos deixou para descansar.
Foram 95 anos de muito trabalho, luta e desafios vencidos dia após dia. Somos oito filhos — cinco ainda vivos e três que não tiveram a sorte de conhecê-la melhor.
Mãe começou a trabalhar muito cedo, primeiro ajudando nosso avô Benedito, que, com apenas um braço, encerava e lustrava a sala do diretor da Estrada de Ferro Bahia-Minas aos sábados. Um dia, o diretor a viu e lhe ofereceu um emprego na ferrovia. Foi lá, na Bahia-Minas, que conheceu e se casou com nosso pai.
Vieram os filhos e um novo desafio: alimentar tantas bocas com dois salários que, somados, mal davam conta. Quando chegamos ao período ginasial, mãe corria atrás de bolsas de estudo; quando não conseguia, estudávamos em escolas mais baratas (as públicas, naquela época, eram para quem tinha Q.I. ou “quem indica”).
Com a extinção da ferrovia Bahia-Minas, os funcionários foram absorvidos pela Rede Ferroviária Federal e nos mudamos para Belo Horizonte. A casa ficava longe do trabalho, e pai e mãe iam a pé para economizar dinheiro e garantir nossa comida.
Aos domingos, ela “inventava” pratos — variações criativas da rotina —: arroz de forno, arroz à grega, suflê de chuchu, tutu de feijão, macarronadas com molhos diferentes. Os almoços de domingo traziam sempre um fator surpresa, numa casa com poucos recursos, mas com uma chef de muita imaginação.
Quando havia bife no almoço, a carne já vinha cortada do açougue, mas mãe, não sei como, conseguia dividir cada fatia em duas. Pai brincava que o bife ficava tão fino que dava para ver através dele.
Os filhos cresceram, pai se separou de mãe, e ela, já aposentada, nunca deixou de trabalhar. Não se adaptava à rotina de dona de casa em tempo integral e passou a atuar na Igreja Católica do bairro, tornando-se referência em tudo que dizia respeito a batizados, casamentos e afins. Só não celebrava missa nem dava extrema unção.
Nos últimos três, quatro anos, a situação se agravou. Já não podia sair à rua, precisou de andador, depois cadeira de rodas e, por fim, não conseguia mais se levantar da cama. Passou a depender das filhas e netos para as necessidades básicas.
Estivemos com ela no Natal e, em uma das conversas, lamentava não poder “aguar” o jardim nem montar as árvores de Natal e os presépios. Só disso ela se queixava.
A morte veio em doses homeopáticas, encontrando uma resistência que eu não conhecia nela — mesmo sabendo da força de vontade que sempre teve.
Recebi a notícia de seu falecimento com naturalidade e repeti para mim mesmo e para outras pessoas: ela foi descansar.
Admiro quem acredita em vida eterna, em passagens de plano, em lugares melhores.
Por enquanto, só sinto um grande, um imenso vazio. Só isso.
[Crônica XXXVII/2026]

