21 de fevereiro de 2026

Dando chances ao azar

Por José Carlos Sá

Hipotética invasão do Palácio da Alvorada (Montagem com foto da AgênciaPlanalto/Copilot/BN_PPT JCarlos)

Uma das frases que considero refletir uma verdade absoluta é atribuída ao filósofo e revolucionário Karl Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa.”

Lembrei dessa máxima ao ler uma reportagem da Folha S. Paulo que divulgava o resultado de uma consulta feita pelo presidente Lula aos chefes das Forças Armadas. O tema: a capacidade de defesa do Brasil diante de um episódio semelhante ao da invasão da Venezuela e sequestro de Nicolás Maduro e sua esposa por tropas norte-americanas, ocorrido em janeiro deste ano.

Segundo o jornal, Lula ouviu que, caso algum país decidisse repetir a operação realizada pelos EUA na Venezuela, o sucesso estaria praticamente garantido.

“O petista ouviu que o país não tem defesa aérea própria para resistir a uma ofensiva como a verificada em Caracas. É uma análise corrente entre militares de alta patente, no sentido de que nada poderia ser feito em caso de ofensivas aéreas de um país com poder bélico como os Estados Unidos”, informa a reportagem.

Como jornalista e cidadão, fiquei me perguntando: a quem interessa divulgar uma informação que, mesmo com meus parcos conhecimentos de estratégia militar — adquiridos no Serviço Militar obrigatório, no cinema e na leitura de romances de espionagem de John le Carré, Ian Fleming, Graham Greene, Frederick Forsyth, entre outros — considero estratégica?

Se o “inimigo” assina a Folha, já deve estar traçando planos para que uma força especial qualquer desça no Palácio da Alvorada e leve Lula e Janja, sabendo que nossas defesas antiaéreas não seriam capazes de impedir a ação.

Parabéns.

Gentileza

E onde entra a “História”, que usei como ponto de partida para este comentário?

Volto no tempo e lembro que a Ilha de Santa Catarina era um ponto estratégico para a Coroa Portuguesa no Atlântico Sul, cobiçada pelos espanhóis como porto de reabastecimento para embarcações que navegavam rumo ao Rio da Prata.

Em uma visita, o nobre espanhol Don Pedro Antonio de Cevallos Cortés y Calderón desembarcou na Ilha e foi recebido pelo governador, que — num gesto de hospitalidade — mostrou ao visitante todo o sistema de defesa, suas forças e fraquezas. Um verdadeiro sincericídio, se essa palavra existisse naquela época.

Alguns anos mais tarde, em 23 de fevereiro de 1777, Dom Pedro Cevallos, já Vice-Rei do Rio da Prata, comandou uma esquadra com 117 embarcações e aproximadamente 12 mil homens, 920 bocas-de-fogo, e tomou a Ilha sem disparar um único tiro de pistola.

Não desejo que o fato se repita. Foi apenas um exercício de imaginação, comparando duas situações semelhantes e lembrando do velho Marx.

Apenas isso.

[Crônica XXXV/2026]