Domingo tranquilo. Marcela tirava uma soneca e eu, sem sono, resolvi assistir a um filme na tevê que não exigisse muito raciocínio. Qualquer coisa com porrada, tiro e bomba, só para passar o tempo.
Cinco minutos depois, os cães daqui de casa começaram a latir desesperadamente. Latiam os três da frente e os dois do quintal dos fundos. Olhei portão, ruas, nada: ninguém chamando, ninguém passando. Mas a laticeira continuava.
Pausei o filme e fui até o muro. Nossa casa é de esquina, então olhei para as duas ruas. Nada. Nenhum dos suspeitos habituais: leituristas da Celesc e da Casan, entregadores de fast food, o pessoal da Shopee, missionários Testemunhas de Jeová ou catadores de latinhas.
Acalmei os cães e voltei para a poltrona. Mal a bunda tinha se ajeitado no assento e a cachorrada já estava indócil de novo.
Peguei a chave do portão e saí à rua. Como antes, não havia viv’alma (sempre quis usar essa expressão, com apóstrofo). Mas os cães seguiam ferozes. Contornei o muro e finalmente vi a causa da barulheira: o filho do vizinho, com a boca no cano de escoamento da água da chuva, fazia “au-au” para os nossos cachorros. Eles, claro, não gostaram da imitação e ficaram ensandecidos.
Gritei:
— Você não tem o que fazer na sua casa, não, ô muleque?
— Eu só estou brincando com os cachorros… — disse, com a cara mais inocente do mundo.
— Então espere aí que eu vou soltar os cachorros para você brincar…
— Não precisa, não precisa! — e saiu rindo.
Voltei ao filme, mas já era. A concentração tinha ido embora junto com o sossego. É cada uma, viu?
[Crônica XXXIV/2025]

