
A terça-feira de carnaval não foi mais “gorda” como antigamente, mas suada… (Imagem criada por IAgo Copilot e modificada por Fotor.Art)
Ontem me propus a escrever uma crônica ligada ao carnaval. Abri o teclado sem assunto pré-concebido, deixando o pensamento correr solto, e comecei assim: “Em plena terça-feira gorda…”
Breque. Para aí.
Escrevi “terça-feira gorda”. Mas que raios é isso? Eu lembrava de ter lido ou ouvido a expressão em matérias jornalísticas e crônicas sobre o “Reinado de Momo” — e fui repetindo os bordões —, mas nunca tinha parado para pensar no que significava. Refleti, refleti, e nada encontrei na minha cultura de almanaque que explicasse por que o último dia de carnaval, fora da Bahia, seria chamado de “terça-feira gorda”.
Já que o raciocínio tinha travado, resolvi perguntar ao professor Google. Descobri que a expressão está mais ligada à tradição católica do que ao carnaval. Eu nem imaginava, mas faz sentido.
Segundo o professor, na terça-feira de carnaval, véspera da quarta-feira de cinzas, era comum consumir alimentos ricos — carnes, gorduras, ovos, laticínios — antes do início do jejum e da abstinência da Quaresma, período de 40 dias preparatórios para a Páscoa. O dia da comilança passou a ser chamado de “terça-feira gorda” pelos franceses, e o termo foi adaptado em outras culturas.
Na casa das minhas avós, onde fui criado, a Quaresma era tempo de silêncio, orações e jejum — só eu escapava. Eles consumiam apenas mingaus e sopas. Na sexta-feira da Paixão, aí sim era jejum fechado: nada de trabalho, apenas orações.
Hoje, em outros tempos, a expressão “terça-feira gorda” soa absolutamente anacrônica, sem sentido prático. Além disso, a terça-feira de carnaval, que já foi um feriado informal, deixou de ser. Ontem, os pedreiros das construções ao lado da minha casa trabalharam duro o dia inteiro. Só lembramos que era carnaval porque o serviço público não funcionou.
[Crônica XXXII/2026]
