16 de fevereiro de 2026

Uma recordação do nada

Por José Carlos Sá

O ator surgiu do meio do cemitério cenográfico com uma fantasia de esqueleto com uma garvata borboleta vermelha no pescoço (Imagem criada por IA mista: IAgo Copilot/Gemini/Photoroom/Remove BG / Edição PPT_BN JCarlos)

Não sei dizer qual sombra da lembrança me fez recordar de uma peça teatral inspirada nos poemas de Augusto dos Anjos (1884-1914), encenada em Belo Horizonte, quando fui entrevistar o único ator que interpretava o chamado “Poeta da Morte”.

Ouvi falar de Augusto dos Anjos pela primeira vez no Curso de Admissão — uma espécie de vestibular para quem concluía o 4º ano primário e queria entrar no ginásio (onde, finalmente, os alunos podiam usar caneta para escrever — meu sonho!). Lembrem-se: nasci em 1956…

O poema que estudamos foi Versos íntimos, aquele que termina assim:

“(…) Se alguém causa inda pena a tua chaga, / Apedreja essa mão vil que te afaga, /Escarra nessa boca que te beija!”

Decorei. E desde então, esses versos me acompanham como uma arma secreta, usados fora de contexto, mas sempre carregados de força.

Mas voltando: eu era repórter da TV Alterosa e naquela noite, fui pautado para cobrir a estreia da peça — cujo nome já se perdeu na poeira da memória. O teatro era uma antiga oficina de veículos, transformada em espaço de espetáculo. Entramos por uma porta lateral: o cinegrafista, o auxiliar e eu. A escuridão nos envolvia, quebrada apenas por uma lâmpada comum acesa nos bastidores.

O cenário era um cemitério: cruzes brancas, fachadas de túmulos, silêncio absoluto. Chamei pelo ator, sem esperança. Nenhuma resposta. Estávamos prestes a sair quando um ruído nos fez deter.

Do meio das lápides cenográficas ergueu-se uma figura: um homem vestido de esqueleto, gravata borboleta vermelha no pescoço, rosto pintado de branco.

O susto foi inevitável. Ele percebeu, pediu desculpas. Cumprimentei-o, reconhecendo que havia encarnado o espírito de Augusto dos Anjos, que via na vida e na morte apenas fenômenos químicos.

No carro, a caminho da redação, rimos muito. O cinegrafista lamentou não ter ligado a câmera: “O repórter ficou mais branco que o ator com a cara pintada de branco!”

Fui alvo de brincadeiras por dias. E hoje, sem motivo algum, essa lembrança me visitou. Talvez porque certas memórias, como o fantasma do Augusto dos Anjos, escolhem elas mesmas quando aparecer.

[Crônica XXX/2026]

 

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Augusto dos Anjos Belo Horizonte Teatro TV Alterosa 

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