
Em caso de dúvidas, jogue pela janela (Imagem criado pelo IAgo Copilot / Edição RemoveBG / PPT JCarlos
Eu ainda estava meio sonso depois da soneca da tarde quando a Marcela disparou à queima-roupa:
— Você viu que jogaram dinheiro pela janela lá em Balneário Camboriú?
— Hein? — respondi, ainda acordando.
— A PF foi cumprir um mandado e jogaram o dinheiro pela janela. Choveu dinheiro…
Poucos minutos depois fiquei sabendo da Operação Barco de Papel, que a Polícia Federal estava executando para apurar possíveis irregularidades envolvendo a Rioprevidência e o Banco Master. Naquele dia, o interfone tocou em um prédio de “alto padrão” — eufemismo idiota inventado pelos coleguinhas para não dizer “luxo”.
Foi então que alguém arremessou uma mala contendo R$430 mil pela janela do 30º andar. O embrulho aterrissou direto na área de serviço do prédio.
O mais irônico dessa história é que não sabemos se a missão da PF naquele endereço de alto padrão deu certo. Mais anedótico ainda: o sujeito que jogou a mala nem era o alvo da operação.
Como houve autoincriminação, os policiais incluíram o arremessador no rol dos investigados e ainda levaram o celular dele.
Eu ri, imaginando a cena. O cara acorda com o barulho das sirenes na rua, olha pela janela e vê um monte de viaturas pretas na porta do prédio. Daqui a pouco, o interfone toca na cozinha. É quase uma dramatização da música Acorda amor, do Chico Buarque, aquela que diz:
“Era a dura, numa muito escura viatura / Minha nossa santa criatura / Chame, chame, chame lá / Chame, chame o ladrão…”
Quase igual.
A cena me lembrou um cartum do saudoso Henfil. Nos anos 1980 em que os motéis eram novidade no Brasil, muitos foram construídos na Barra da Tijuca, então um bairro tranquilo e discreto do Rio de Janeiro.
O desenho mostrava o personagem Fradim na porta de um motel gritando “mãe”, enquanto várias mulheres pulavam nuas das janelas.
Era a famosa “culpa no cartório”, como dizem lá em Minas.
[Crônica XXVIII/2026]
