
Comprando a passagem celestial (Imagem gerada e editada por IA Copilot/Fotor;Photoroom e BN PPT JCarlos)
Dias atrás, vi uma postagem no Facebook garantindo que 2026 será o ano do arrebatamento: Jesus virá buscar suas ovelhas.
O detalhe é que essa viagem já foi remarcada tantas vezes que parece mais um voo da companhia aérea “Apocalipse Airlines”: anuncia-se, prepara-se, mas na hora o avião não decola.
Em 1978, na Guiana, um grupo resolveu não esperar pelo embarque oficial e fez o “check-in” por conta própria, tomando um ponche com cianeto. Resultado: uma tragédia que virou símbolo de como a pressa em chegar ao céu pode ser fatal.
Eu, como católico, sigo minha rotina: missa, exame de consciência, o famoso “por minha culpa, minha máxima culpa” batendo no peito. Tento ser honesto, ajudar quando posso, não atrapalhar quando não consigo. Mas descobri que isso não basta. Fazer o bem é só o pré-requisito; o ingresso para o arrebatamento exige estar na lista VIP dos “escolhidos”.
Fui investigar quem são esses felizardos. Em teoria, são “os que aceitaram a Cristo pela fé, foram batizados e permanecem fiéis”. Ótimo, pensei, estou dentro. Mas logo percebi que há “Cristãos” e “Cristãos”. Católicos e ortodoxos, por exemplo, ficam de fora. Ou seja, seguir Cristo não é suficiente: é preciso seguir Cristo na versão correta, com selo de autenticidade aprovado pela denominação certa.
Outras tradições que também se dizem cristãs — espíritas, umbandistas — igualmente não entram no pacote. Parece que o céu tem regras de imigração mais rígidas que certos países.
Resolvi, então, me aproximar das igrejas evangélicas. Mas aí veio a nova dúvida: qual delas é a verdadeira “companhia aérea” do arrebatamento?
Já conhecia as grandes marcas: Presbiterianos, Batistas, Metodistas, Luteranos, Adventistas, Mórmons, Testemunhas de Jeová, Assembleia de Deus, Congregação Cristã, Quadrangular, Universal.
Mas descobri também uma lista interminável de franquias menores: Templo da Família, Igreja Aba, Ministério Cedro do Líbano, Palavra Viva, Igreja Resplandeça em Cristo, Ministério Resgate Internacional, Ministério Gênesis, Mais Cristo, Restaurando a Noiva, O Brasil para Cristo…
Cada uma garante que só ela tem o bilhete dourado. As demais, claro, estão enganadas. E eu, perdido nesse balcão de check-in celestial, não sei em qual fila entrar. Só sei que não quero ser deixado para trás quando o voo finalmente decolar.
[Crônica XXVI/2026]
