
Enquanto o cartaz exibe alegria, os trabalhadores costuram tristeza (Imagem criada pelo meu assistente IAgo Copilot)
Em algum momento dos anos 1970, com a Guerra Fria fervendo, li uma matéria que denunciava: os soviéticos usavam “mensagens subliminares” para hipnotizar nós, ocidentais aliados dos norte-americanos, e nos transformar em comunistas devoradores de fígado de criancinhas — de preferência já batizadas.
Havia também a ala religiosa, que jurava por Deus que músicas, filmes e propagandas escondiam mensagens capazes de induzir ao satanismo ou ao consumo desenfreado. A teoria da mensagem subliminar, sem qualquer comprovação científica séria, espalhou-se pelo mundo. No Brasil, os conspiracionistas de plantão fizeram dela seu prato principal. O ridículo chegou ao ponto de afirmarem que, se o disco da Xuxa fosse tocado ao contrário, ouviríamos uma mensagem do próprio capeta.
Eu nunca acreditei nisso, mas a repetição da mentira era tão forte que às vezes pensava ser possível, sim, que alguém quisesse manipular nossas mentes e dominar o mundo. Não com essa bobagem de satanismo — afinal, se o diabo quisesse agir, faria pessoalmente, sem perder tempo com mensagens que gente como eu nem perceberia.
Esse assunto voltou dos subterrâneos da memória — justamente o alvo preferencial da tal mensagem subliminar — quando li sobre um brinquedo de pelúcia: o Cavalinho Tristonho. Por trás de um erro de montagem, ele acabou denunciando a sobrecarga de trabalho na China.
Enquanto no Brasil ainda se discute a “escala 6 x 1”, lá vigora o chamado “Sistema 996”: das 9 da manhã às 9 da noite, seis dias por semana. E o que o cavalo tem a ver com isso? Explicaram-me que, em 17 de fevereiro, a China celebra o início do Ano do Cavalo, signo que simboliza energia e trabalho árduo. Para faturar, os marqueteiros criaram como mascote o Cavalo Risonho, um brinquedo vermelho de pelúcia para marcar o novo ciclo zodiacal.
Mas em uma das fábricas, talvez por descuido ou talvez de propósito, o molde foi costurado ao contrário: o sorriso virou careta e as narinas lembravam lágrimas. Uma mensagem subliminar perfeita. Os trabalhadores não podiam denunciar sua realidade, mas encontraram uma forma de fazê-lo sem chamar a atenção dos patrões — e ainda assim a mensagem chegou ao mundo.
O paradoxo é que milhares de pessoas na China se identificaram com o Cavalinho Triste, e a procura pelo produto “defeituoso” explodiu. A fábrica, ironicamente, passou a trabalhar dobrado para atender às encomendas.
Pensei comigo: daqui a pouco, como protesto, vão lançar o Cavalinho Morto…
[Crônica XXV/2026]
