
Bartolomeu não consegue resistir ao sono (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot / Montagem BN JCarlos)
A única distração do seu Bartolomeu, agora na velhice, é assistir televisão. Ele se senta no sofá com a garrafa térmica na mesinha ao lado, pronta para abastecer a cuia de chimarrão. Mateia devagar, olhando para a tela, mas com o pensamento perdido em outros tempos.
Bartolomeu foi domador de cavalo bravo durante muitos anos. Até que um coice certeiro nas costas o aposentou à força. “Não servi mais pra nada”, gosta de repetir, com certo orgulho disfarçado. “Eu era ginete famoso, iam me buscar lá na estância do meu velho pai pra domar cavalo. Corri o Rio Grande, o Paraná… até o Paraguai!”, lembra, nas raras vezes em que se anima a conversar.
Dona Ernestina, a esposa, respeita o silêncio do marido e cuida para que nada lhe falte. Ele tem dificuldade de se levantar sozinho. “Se está sentado, tem que se apoiar em alguma coisa… Não gosta que eu ajude, mas fico de olho, pra não se atrapalhar”, explica.
Mas paciência tem limite. Por duas ou três vezes, Bartolomeu dormiu diante da televisão e deixou a cuia escorregar das mãos, espalhando água e erva pelo tapete.
— ‘Tolomeu! Arranca-te daí, homem! Vai dormir na cama! A televisão fala sozinha e tu cochila feito galo velho.
— Não tô dormindo, Tina… Tu chia mais que chaleira furada.
Ontem, porém, a paciência de Ernestina foi posta à prova definitiva. Estava na área de serviço lavando roupa quando ouviu um estrondo. Pensou logo que o marido tivesse caído. Saiu correndo, tropeçando nas chinelas, quase derrubando a porta da cozinha.
Na sala, não viu Bartolomeu na poltrona. O coração disparou. No chão, apenas a cuia espatifada, a erva espalhada e a bomba perdida no meio da confusão.
— Bartolomeu! — gritou, sem resposta.
Contornou o móvel e avistou primeiro os pés, depois o corpo inteiro do marido, dormindo tão profundamente que até roncava.
Assustada, sacudiu o homem. Ele abriu os olhos devagar, viu o rosto da esposa colado ao dele e deu um pulo, batendo a cabeça na dela.
— Mas que diabos, mulher! Quase me mata do coração!
— Eu? Olha o chão! Olha o que tu fez!
— Eu???
— Cochilou e deixou a cuia cair.
Bartolomeu olhou o estrago e coçou a cabeça.
— Parece que um tropel de bagual passou por aqui…
— O bagual é tu, homem. Cochilou, a cuia cai.
[Crônica XXII/2026]
