Carnaval chegando e já tem gente afiando o samba no pé. Eu, que passo longe da folia, fico só de olho nos causos que rendem boas crônicas — às vezes tristes, às vezes cômicas. Eis alguns.
A queda da baiana
Num carnaval antigo, a vizinha da minha mãe, dona Jurema, foi convidada para a Ala das Baianas em Contagem. Experiência nenhuma, mas tinha o “currículo”: nascera na Bahia.
No dia do desfile, vestida com toda a indumentária que Dorival Caymmi descreveu: “(…) Tem torço de seda, tem / Tem brincos de ouro, tem / Corrente de ouro, tem / Tem pano da costa, tem / Tem bata rendada, tem / Pulseira de ouro, tem / Tem saia engomada, tem / Sandália enfeitada, tem (…)”, tropeçou nas anáguas e caiu no meio das baianas, rolando entre pernas que sambavam.
Devido ao peso das roupas, ela não conseguia se levantar sozinha e foi preciso que os diretores da escola a colocassem em pé.
Envergonhada, abandonou o desfile e voltou para casa chorando. Desde então, “carnaval” virou palavra proibida em seu vocabulário.
Fantasia cara
Dona Ernestina, ou Tina, viúva animada, recebeu aos 65 anos o primeiro convite para desfilar. O marido, em vida, não deixava nem assistir pela TV.
Ela e a amiga foram ao barracão em Florianópolis, preencheram cadastro, tiraram medidas… até que veio a pergunta fatal:
— E a forma de pagamento?
Cada fantasia custava dois “pilas”, parcelados no cartão. As duas se entreolharam, agradeceram e desceram o morro em silêncio. Nunca mais tocaram no assunto.
Enigma
Outra vez, o convite foi para uma mãe, que arrastou filha e genro. Perguntei detalhes: ala, fantasia, enredo… nada sabiam.
— O que entendi é que vamos ali na frente acenando para as pessoas.
— Na comissão de frente?
— Acho que não. Só pediram tênis preto. Talvez camiseta.
Imaginei a cena: Já estou vendo vocês todos fantasiados de “Pinguim de Madagascar”, com a diretora da ala gritando, como no filme:
– Sorriam e acenem, rapazes, sorriam e acenem…
[Crônica XXI/2026]

