Cheguei ao livro por meio de uma campanha de financiamento coletivo, à qual fui levado a colaborar por um impulso qualquer. O tema era terror — gênero ao qual não sou afeito — e a contribuição foi a mínima permitida, o que me garantiu um exemplar em e-book e um voucher para usar na editora.
“A viagem maldita de Nosferatu” (Cartola Editora, São Paulo, 2025) é uma antologia que reúne 32 contos. Cada autor narra, à sua maneira, o que aconteceu com a tripulação do veleiro Empusa durante a travessia entre um porto na Transilvânia e a cidade de Winsborn, na Alemanha. No porão do navio, caixas misteriosas despachadas sem acompanhante despertam primeiro curiosidade, depois pânico, e finalmente a morte que chega em conta-gotas.
Os contos exploram a travessia sob perspectivas diversas: o diário de bordo do capitão Thomas Schrader; as cartas e registros dos marujos; os ratos que habitavam o porão; os seres que vieram nas caixas; até mesmo as madeiras que compõem o navio oferecem sua versão.
O que se repete em todos é a desgraceira que se desenrola ao longo de dias — cuja duração varia de conto para conto — e a forma como o vampirão age para se alimentar durante a viagem.
Entre os textos, destaco “Guia de esfolamento de rato”, de Schleiden Nunes Pimenta. É uma verdadeira aula de dissecação, narrada pela mente de um homem faminto preso no porão, que captura um rato vindo em uma das caixas embarcadas:
“(…) descolou a pele assim como o sonho havia lhe mostrado, a começar por uma incisão lateral, do pescoço ao início do rabo, seguido de um descolamento demorado, embora em movimentos rápidos, expondo os músculos, a anatomia roseada; uma expertise desprovida de defeitos e que concedeu ao animal uma beleza, um desenho, que, ali, reluzindo em resposta aos fachos de luz que escapavam das irregularidades do piso superior, o rato jamais ostentaria não fosse pelos dedos do artista”.
Imagino a cena e a apago rapidamente. Não quero saber como é um rato pelado.
Após a leitura, fui pesquisar algumas curiosidades, começando pelo nome do navio. Logo na primeira explicação percebi que a viagem não poderia dar certo. Como diria o jornalista José Simão: era um predestinado.
A deusa grega homenageada, Empusa, é descrita assim: “Empusas (singular: Empusa) são monstros alados e sugadoras de sangue na mitologia grega, sob o controle da deusa Hécate. Elas são conhecidas por se alimentarem do sangue dos homens e são a base para a imagem do vampiro moderno”.
Já o Nosferatu propriamente dito tem descrições variadas, inspirado na figura consagrada pelo cinema desde 1922, que segue rendendo HQs, jogos, livros e outras expressões artísticas derivadas do Drácula de Bram Stoker.
O tema — como disse no início — não é do meu agrado. É mais um livro que li apenas para justificar o investimento.
[Resenha III/2026]


