
Ela lia poemas de amor para o marido encarcerado (Imagem criada pelo Iago Copilot / Edição BN JCarlos)
Ela chegou ao bar e me cumprimentou. Levava uma menininha pela mão e, na outra, um caderno escolar de espiral. No balcão pediu um saquinho de pipoca doce e um refrigerante, que entregou à filha.
Instantes depois, o telefone público instalado do lado de fora tocou e ela correu para atender. Colocou a cabeça para fora do orelhão e perguntou se a menina podia ficar na mesa comigo. Concordei. Então disse à filha:
— Fica com o tio que a mãe vai falar com o papai. Depois eu te chamo pra você falar também.
Durante muitos minutos, a mulher leu poemas escritos no caderno. Depois, silenciava para ouvir alguém do outro lado da linha e chorava. Mais alguns instantes e chamou a menina, passou o telefone para ela e enxugou os olhos e o nariz. Desligou, agradeceu e foi embora, levando a filha pela mão, como havia chegado.
Quando o dono do bar veio trocar minha garrafa de cerveja vazia por uma cheia, contou — sem que eu perguntasse — que a mulher aparecia toda semana, às quartas-feiras, naquele mesmo horário, para esperar a ligação do marido.
Perguntei se o marido morava em outra cidade. O “Amado Batista” (apelido do dono do bar, por se parecer com o cantor brega), sorrindo, respondeu com reticências:
— Ele mora aqui mesmo, em Porto Velho…
— Uai, e por que tanta saudade? — insisti.
— Ô, seu Carlos, ele está preso no Urso Branco. O cara liga pra ela lá do presídio e a mulher lê as cartas de amor que ela mesma escreve. Na próxima quarta -feira, ela volta.
E percebi que, às vezes, o amor não precisa de liberdade para existir — basta um caderno de espiral, um telefone público e a coragem de continuar escrevendo.
[Crônica XIX/2026]
