Nas últimas semanas, entrei numa maratona de livros que não empolgaram, mas li de teimosia. A exceção foi O doutor negro, do Conan Doyle.

Câmara Cascudo – em desenho de Jô de Oliveira -, foi um grande pesquisador da cultura brasileira (Reprodução)
Aí, por impulso, tirei da fila de espera um livro achado no brechó: Lendas Brasileiras, de Câmara Cascudo, ilustrado por Poty Lazzarotto. Resultado? Devorei em duas sessões e me arrependi de não ter lido antes.
São 21 lendas das cinco regiões do país. Algumas já conhecidas (Iara, Negrinho do Pastoreio, Chico Rei), outras surpreendentes: o moleque endiabrado Romãozinho e os misteriosos Tatus Brancos da serra da Mantiqueira.

A lenda do Cobra Norato, irmão gêmeo da Maria Caninana, é bastante conhecida no norte do país (Desenho Poty / Reprodução)
A lenda da Sapucaia-Roca conta a história de uma aldeia Mura, que existiu no rio Madeira e foi tragada pelas águas devido ao costume dos moradores de se embebedar com cauim, quando “entregavam-se a danças tão lascivas e cantavam cantigas tão impuras, que faziam chorar de dor aos angaturamas, espíritos protetores que por eles velavam”.
Depois que o “Madeirão” levou a aldeia, contam que “até hoje”, em determinadas madrugadas sem estrelas, se ouve galos cantar e o som da música vindo do fundo do rio. Ouvi essa história contada pela professora Yêdda Borzacov, que publicou uma versão da lenda em um livro de antologias editado pelo Governo de Rondônia .
Na “Missa dos Mortos”, de madrugada o sacristão ouve barulhos na igreja e vai ver, a nave principal está iluminada e cheia de gente. Quando olha com mais atenção, o celebrante e todas as pessoas são esqueletos vestidos. Ele volta para a cama e fica lá quietinho.
Em outra lenda — recolhida no Nordeste — Cascudo narra a história de um carreiro que transportava um sino destinado a uma igreja. O homem maltratava os bois que puxavam o carro e, em certo ponto da estrada, os animais se dirigiram propositalmente para um despenhadeiro, levando todos — bois, carro-de-boi, carreiro e sino — para o fundo de uma lagoa.

A Missa dos Mortos é uma lenda urbana trazida de Portugal, mas ambientada em Ouro Preto – MG e é ouvida ainda hoje (Desenho Poty / Reprodução)
Dizem que se passarem naquele lugar “depois da primeira cantada do galo no tempo da Quaresma, é possível ouvir o cantar do carreiro, o chiado do carro, o sino tocar e os bois gemer. Eu acredito sem ter que ir lá ver se é verdade. Li uma passagem semelhante a esta na obra “Memorial do Convento”, do português José Saramago.
A lenda Romãozinho fecha o livro com a história de um menino cujo “divertimento era maltratar animais e destruir plantas”. Gente boa, só que não. Um dia, a mãe o mandou levar almoço para o pai, que trabalhava na roça. Romãozinho foi de má vontade e, no caminho, comeu a galinha inteira, colocando os ossos de volta na marmita. Ao pai disse que a mãe teria dado a galinha a um homem que ia à casa deles quando o pai estava ausente.
A ignorância falou mais alto: o pai deixou a enxada, foi para casa e matou a mulher, que antes de morrer rogou uma praga ao filho: “Não morrerás nunca. Não conhecerás o céu, nem o inferno, nem o descanso enquanto o mundo for mundo…” Como praga de mãe pega mais que visgo de jaca, o moleque — que nunca cresceu — continua vivo e perturbando a vida dos outros, especialmente no Goiás.
Histórias que misturam assombro, tradição e poesia popular. O livro é antigo, difícil de achar, mas vale cada página.
Recomendo sem medo.
SERVIÇO:
Livro: Lendas Brasileiras
Autor: Câmara Cascudo – Ilustrações Poty
Editora: Ediouro Publicações, 2000
[Resenha II/2026]

