28 de janeiro de 2026

Ordenhando sucuris

Por José Carlos Sá

Enquanto a Marcela saboreava uma pamonha, eu observava as prateleiras ao redor e me surpreendia com a diversidade de produtos. Estávamos na lanchonete Quiosque do Milho, em Pedra do Indaiá, interior de Minas Gerais.

Especialistas em derivados de milho, eles ofereciam também uma infinidade de queijos e doces — havia até doce de leite com raiz de mamão, alguns vendidos em gomos de bambu. Queijos e biscoitos de toda qualidade. O pão de queijo recheado com linguiça estava no cardápio, mas não cheguei a experimentar.

Como sempre, o que me chama atenção é o inusitado. Um cartaz anunciava “pertences de porco no vidro”: pés, línguas, orelhas, rabos e até cabeça de porco.

Epa! Essa eu quero ver! — exclamei. Pedi à balconista que nos atendia para mostrar o tal vidro com a cabeça, mas ela desconversou: disse que não tinham naquele dia, que o cartaz era antigo, e ficou por isso mesmo.

Gel massageador “de” manteiga de sucuri (foto JCarlos)

Segui minha exploração e encontrei uma embalagem com o rótulo: Gel massageador Manteiga de Sucuri. Incrédulo, peguei a caixa para conferir. No verso, a promessa: alívio para praticamente qualquer dor — “de corno” inclusive — bastando aplicar na região desejada. Havia ainda a recomendação de não usar em gestantes.

Os ingredientes do unguento, em inglês (Foto JCarlos)

A lista de ingredientes estava em inglês. Sem tempo para decifrar, fotografei a caixa e guardei o mistério para investigar depois.

Imaginei o laticínio de sucuris (Imagem criada pelo assistente IAgo Microsoft)

De volta à estrada, no longo trecho que se seguiu, comecei a imaginar como seria a fabricação desse unguento milagroso. Será que a empresa mantém uma fazenda de criação de sucuris (Eunectes murinus)? Qual espécie seria a mais adequada para fornecer a matéria-prima? E será que precisa de licença do Ibama?

No Brasil existem — segundo os entendidos — a sucuri-verde, no Cerrado e Amazônia; a sucuri-amarela, no Pantanal; a sucuri-malhada, na Ilha do Marajó; a sucuri-da-bolívia, encontrada ocasionalmente na fronteira; e a recém-descoberta sucuri-verde-do-norte, também amazônica.

A bula do produto que imaginei (

Meu pensamento foi além: será que o processo de fabricação da manteiga de sucuri segue a mesma lógica da manteiga de leite de vaca? Se for assim, como seria o processo de ordenha das cobras? Aliás, cobras têm tetas? Para produzir 200 gramas de manteiga comum são necessários de 4 a 5 litros de leite bovino. Quantos litros de “leite de sucuri” seriam necessários para encher o potinho que vi no Quiosque?

Não sei quantos quilômetros percorri nessa viagem mental, até que outro assunto tomou conta do meu cérebro.

Já em casa, depois de desfazer as malas e descansar da jornada, lembrei da bendita “manteiga de sucuri” e fui conferir os ingredientes para descobrir o quanto de origem animal havia na fórmula.

Era fake. Fui enganado por mim mesmo.

A pomada, indicada para dores musculares, era feita de uma mistura de arnica, pinus, mentrasto, copaíba, erva-baleeira e extratos aromáticos de eucalipto e alecrim. Não havia uma gota sequer de leite de cobra — muito menos de sucuri.

[Crônica XVIII/2026]

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