
A menininha descobriu uma fruta misteriosas que achou deliciosa (Ilustra criada pelo meu assitente IAgo Microsoft)
Eu estava distraído e não ouvi direito o começo da conversa, quando fui convidado a participar e dizer o que eu comia, ainda criança, com medo de ser veneno. Não entendi a pergunta de imediato, e repetiram com mais detalhes: queriam saber se eu me aventurava nas frutinhas do mato ou se as evitava.
Respondi que minha mãe e minha avó sempre diziam para não comer nada desconhecido. Talvez por isso, até hoje, minha fruta predileta seja a banana — aquela mesma da antiga marchinha de carnaval: “Banana menina tem vitamina / Banana engorda e faz crescer.”
Quando escoteiro, aprendi também a ter cuidado com frutas silvestres, e sigo evitando.
Então soube que uma colega colhia frutinhas pretas no mato e brincava de casinha, mas não as comia, com medo de veneno. Já outra, comia a mesma frutinha sem receio, porque ninguém nunca lhe dissera que fazia mal. Outros exemplos foram surgindo, cada um lembrando o que era ou não considerado comestível nas regiões onde cresceram.
Lembrei que, ao voltar do colégio, eu e meu colega Delcimar parávamos num terreno baldio para jogar pedras e derrubar frutas de jatobá. Quebrávamos a casca e chupávamos os caroços cobertos por uma espécie de farinha — algo parecido com a textura do leite em pó — verde-claro. Minhas colegas não conheciam a planta, e foi difícil descrevê-la.
A conversa se estendeu até o fim da aula, quando uma das colegas resolveu encerrar o assunto no maior anticlímax possível. Contou que, aos seis anos, brincava com a irmãzinha de três no terreiro do sítio onde moravam.
A pequena se afastou e, pouco depois, voltou com a mãozinha cheia de bolinhas, que levava à boca e mastigava com gosto. A narradora disse ter perguntado o que era aquilo e onde a mana tinha encontrado frutinhas tão saborosas. A menina, inocente, mostrou o lugar: eram bolinhas tiradas do cocô do cachorro da casa…
[Crônica XVII/2026]
