“Você não quer ficar comigo? Pois então vou dar uma cabeçada na parede. Se doer ou sangrar, a culpa é sua!”
Parece delírio, mas não é. Freud e outros psicanalistas já falaram desses gestos de autodestruição que, curiosamente, não têm como alvo a própria dor, mas a culpa do outro.
Dias atrás vi, com tristeza, um exemplo desses. Um amigo que lutava bravamente contra o álcool e as drogas resolveu mergulhar de novo no vício — não por falta de vontade, mas como vingança contra a ex-esposa, que agora refaz a vida ao lado de outro homem.
Conheço histórias semelhantes, mas esta me tocou de perto. Ele vinha firme, sóbrio, até que na virada do ano cruzou com a ex na rua, de mãos dadas com o novo companheiro. Bastou isso para que buscasse as velhas biqueiras, como quem diz: “Tá vendo? É por sua causa.”
E assim, o castigo que deveria atingir o outro acaba por destruir quem o aplica. Uma pena.
A vingança do Bom Cabelo
Robertinho, o famoso “Bom Cabelo”, também teve sua vingança — menos trágica, mas igualmente curiosa.
O apelido vinha da cabeleira castanho-clara, longa e anelada, que primeiro cresceu por preguiça e depois virou arma de sedução. Ele cuidava dos fios com produtos que prometiam brilho e sedosidade, como nos anúncios de revista. Resultado: onde passava, chamava atenção. Na escola, as meninas disputavam sua companhia.
Ciente do poder, Robertinho fazia das paixões um passatempo. Beijos aqui, amassos ali, e logo partia para outra. Era uma espécie de Sansão do recreio.
Até que apareceu uma menina diferente. Namoraram, mas logo ele começou a impor regras: nada de amigos meninos, nada de matinês com as irmãs, nada de sair sem ele. A moça, sensata, pesou os prós e contras e disse adeus.
Surpreso, Robertinho apelou para sua única arma: “Se você me deixar, corto meus cabelos!” Ela deu as costas e foi embora sem olhar para trás.
Na segunda-feira, lá estava ele, careca. A turma, cruel como só adolescentes sabem ser, manteve o apelido: Bom Cabelo. E assim ficou, mesmo que as madeixas nunca mais voltassem.
[Crônica XVI/2026]

