24 de janeiro de 2026

Autossabotagem: Como perder brigando consigo mesmo

Por José Carlos Sá

Como perder brigando consigo mesmo (Imagem gerada pelo IAgo Microsoft, meu assistente virtual)

“Você não quer ficar comigo? Pois então vou dar uma cabeçada na parede. Se doer ou sangrar, a culpa é sua!”

Parece delírio, mas não é. Freud e outros psicanalistas já falaram desses gestos de autodestruição que, curiosamente, não têm como alvo a própria dor, mas a culpa do outro.

Dias atrás vi, com tristeza, um exemplo desses. Um amigo que lutava bravamente contra o álcool e as drogas resolveu mergulhar de novo no vício — não por falta de vontade, mas como vingança contra a ex-esposa, que agora refaz a vida ao lado de outro homem.

Conheço histórias semelhantes, mas esta me tocou de perto. Ele vinha firme, sóbrio, até que na virada do ano cruzou com a ex na rua, de mãos dadas com o novo companheiro. Bastou isso para que buscasse as velhas biqueiras, como quem diz: “Tá vendo? É por sua causa.”

E assim, o castigo que deveria atingir o outro acaba por destruir quem o aplica. Uma pena.

A vingança do Bom Cabelo

Robertinho, o famoso “Bom Cabelo”, também teve sua vingança — menos trágica, mas igualmente curiosa.

O apelido vinha da cabeleira castanho-clara, longa e anelada, que primeiro cresceu por preguiça e depois virou arma de sedução. Ele cuidava dos fios com produtos que prometiam brilho e sedosidade, como nos anúncios de revista. Resultado: onde passava, chamava atenção. Na escola, as meninas disputavam sua companhia.

Ciente do poder, Robertinho fazia das paixões um passatempo. Beijos aqui, amassos ali, e logo partia para outra. Era uma espécie de Sansão do recreio.

Até que apareceu uma menina diferente. Namoraram, mas logo ele começou a impor regras: nada de amigos meninos, nada de matinês com as irmãs, nada de sair sem ele. A moça, sensata, pesou os prós e contras e disse adeus.

Surpreso, Robertinho apelou para sua única arma: “Se você me deixar, corto meus cabelos!” Ela deu as costas e foi embora sem olhar para trás.

Na segunda-feira, lá estava ele, careca. A turma, cruel como só adolescentes sabem ser, manteve o apelido: Bom Cabelo. E assim ficou, mesmo que as madeixas nunca mais voltassem.

[Crônica XVI/2026]

Tags

Autodestruição Freud 

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