17 de janeiro de 2026

O trem anfíbio

Por José Carlos Sá

No mapa escolar, o Território do Guaporé. Eu não sabia onde era, mas o nome me fascinou (Imagem retirada da Internet)

Na sala de aula em que iniciei o curso primário, no início da década de 1960, havia um mapa escolar antigo com as divisões territoriais do Brasil. Nele aparecia o nome “Território do Guaporé”. O nome me chamou atenção e ficou gravado na memória, mesmo sem eu saber o significado ou a localização daquele lugar.

Vi esta foto – não sabia onde, e também a guardei na memória (Reprodução)

Alguns anos depois, vi em uma revista uma foto que me impressionou: o último vagão de uma composição ferroviária, com várias pessoas na plataforma de embarque, parcialmente submerso. A água cobria a parte inferior do trem, ocultando rodas e trilhos. Li que aquilo acontecia justamente no antigo Território do Guaporé, onde funcionava a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

Essas imagens voltaram à minha lembrança quando meu amigo Márcio Raposo me convidou a ir a Porto Velho prestar um serviço ao Governo do Estado. Finalmente eu i conhecer aqueles lugares longíquos na distância geográfica e na memória.

O trem aquático

Durante os mais de trinta anos em que vivi em Rondônia, li, estudei, perguntei e me apaixonei pela saga da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Tive até a oportunidade de compartilhar um passeio ferroviário com Manoel Rodrigues Ferreira, autor de A ferrovia do diabo: história de uma estrada de ferro na Amazônia.

Esta postagem reacendeu minha curiosidade (Anderson Leno – Retrados da História/Facebook – Reprodução)

A imagem do vagão lotado que parecia boiar nas águas continuava a me perseguir. Por um engano de memória, pensei que fosse da revista Realidade e procurei desesperadamente por aquele exemplar. Há poucos dias, reencontrei a foto no grupo Retratos da História, no Facebook, publicada por Anderson Leno, que a coloriu digitalmente.

Capa da edição da revista O Cruzeiro, com chamada para a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, “Estrada da Morte” (Reprodução)

Com paciência e ajuda da tecnologia, descobri que a foto não era da Realidade, mas sim de uma reportagem de Jorge Ferreira, publicada em 3 de outubro de 1959 na revista O Cruzeiro. Isso explica como tive acesso à imagem: minha avó assinava e colecionava a revista, então a mais importante do país.

Trecho da matéria do repórter Jorge Ferreira, com fotos da ferrovia trabalhando na cheia dos rios (Reprodução)

A cena retratava a vida de quem dependia da Madeira-Mamoré, nos confins da Amazônia. Na época das cheias, ferroviários e passageiros se sujeitavam a “navegar” sobre trilhos invisíveis, sem saber se ainda estavam lá.

Por isso, o título de “destemidos pioneiros”, dado a esses antigos guaporeanos e depois rondonienses no hino do Estado, é mais que merecido.

E o som da palavra “Guaporé” continua saboroso aos meus ouvidos. Sei hoje que pode significar “rio encachoeirado”, em Guarani, ou “vale deserto”, em Tupi. Mas gosto mesmo é da forma como Gilberto Gil o usa para rimar com “lugar qualquer”, no reggae Vamos fugir.

[Crônica X/2026 – Uma versão condensada deste texto foi publicada originalmente no Jornal Cool do Mundo, edição nº 10, de 17/01/1026]

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