13 de janeiro de 2026

A tenda do silêncio

Por José Carlos Sá

O cone do silêncio é mais uma coisa em comun entre Trump e Smart (Montagem sobre imagem de IA Copilot e foto de Patrick Semansky / BN JCarlos)

Enquanto o futuro da Venezuela e de suas riquezas naturais permanece incerto, eu sigo explorando o passado. Há poucos dias terminei a leitura de um livro sobre as independências latino-americanas, em que o herói Simón Bolívar, nascido em Caracas, teve papel decisivo na separação da Espanha — aquela que se dizia “dona das terras” pelo Tratado de Tordesilhas, homologado pelo Papa Alexandre VI.

Acompanho, dia sim e dois não, o pós-invasão e, nesse percurso, encontro títulos de matérias antigas que me escaparam na época em que foram publicadas. Foi assim que, entre as sugestões de leitura no portal da CNN Brasil, deparei-me com o seguinte título, que abri de imediato: “Trump usou ‘tenda blindada’ para comandar captura de Maduro”. Na linha de apoio, lia-se: “Presidente estava na mansão de Mar-a-Lago, na Flórida, quando comandou ataques na Venezuela que terminaram com a captura do ditador e da mulher dele”.

O texto explicava que Donald Trump passava o fim de ano em seu resort e que, ali, foi montada uma estrutura portátil de segurança, “capaz de impedir qualquer tipo de vigilância externa, interferência de sinal ou vazamento de informações consideradas ultrassecretas”.

Descobrimos então que a tal tenda é chamada de SCIF (Sensitive Compartmented Information Facility, na sigla em inglês), ou “Instalação de Informação Compartimentada Sensível”. Nela, foram instalados equipamentos que garantem isolamento acústico e blindagem eletromagnética, bloqueando sinais de Wi-Fi, celular, rádio ou grampos eletrônicos.

Os meus seis leitores já estão acostumados às relações que faço entre fatos e memórias, entre o presente e o que ficou guardado na minha cabecinha. Por isso não estranharão que, ao ver a tenda de Trump, eu tenha lembrado imediatamente do “Cone do Silêncio”, um dos muitos artefatos usados pelo Agente 86 na antiga série de TV dos anos 60/70.

Para quem não sabe, Maxwell “Max” Smart era um agente secreto da agência de contraespionagem norte-americana chamada C.O.N.T.R.O.L. Sempre que precisava tratar de algum assunto sigiloso com o chefe, eles recorriam ao cone do silêncio. O problema é que o aparelho quase nunca funcionava direito: às vezes um não conseguia ouvir o outro, e em outras ocasiões era possível escutar de fora, mas não dentro.

A tenda de Trump me trouxe à memória o cone do 86. E, na minha opinião, há outra semelhança entre os dois: as trapalhadas, que surgem em sucessão impressionante.

[Crônica XI/2026]