11 de janeiro de 2026

Um hábito e muitos monges

Por José Carlos Sá

O cérebro comanda a boca (Ilustra JCarlos sobre imagem de IA)

Um provérbio antigo ensina que “o hábito não faz o monge”. Mas há quem diga que somos, sim, aquilo que fazemos repetidamente. As nossas rotinas e práticas diárias nos moldam, e por isso é tão difícil mudar de hábitos de um dia para o outro.

O cérebro, esperto, cria atalhos para economizar energia. Quando repetimos uma ação muitas vezes, ela vira reflexo, passa a habitar o inconsciente. E, dependendo da situação, a pressão externa reforça esse comportamento já natural.

Recorro à sociologia, psicologia, neurociência e espiritualidade para explicar uma dificuldade que tenho — e que percebo em outros fiéis da comunidade onde participo da missa. Antes da Eucaristia, rezamos o “Pai Nosso”. No telão, ao final da oração, aparece a observação: “Não se diz Amém”.

A observação é inútil. Eu digo, quem está ao meu lado diz, e até o celebrante murmura um “amém” solidário com a assembleia.

Descobri em minhas leituras que o “Amém” não é apenas uma palavra, mas um símbolo de fé e conclusão. Retirá-lo dá a sensação de oração incompleta, sobretudo para quem o repete há mais de 60 anos, como eu. Omitir o “Amém” não é só questão de comportamento, mas de sentido emocional e espiritual.

Juntando isso com aquilo

Esse exemplo pessoal — minha incapacidade de omitir o fecho da oração — me fez pensar em um fato recente na Itália.

Em dezembro, li uma notícia com o título: “Ministério da Defesa italiano proíbe o ‘sim’ após o hino nacional”. Explicavam que é costume as pessoas gritarem “Sim” depois do refrão do hino, especialmente em jogos da seleção: “Siam pronti alla morte, l’Italia chiamò” (“Estamos prontos para a morte, a Itália chamou”).

Os burocratas proibiram essa demonstração pública de amor à pátria. Mas, como acontece com o nosso “Amém” paroquial, ninguém ligou. A própria primeira-ministra Giorgia Meloni e sua equipe gritam o “Sim”, incentivando os italianos a reafirmar seu nacionalismo.

Pois é. Eu também sigo concluindo meu “Pai Nosso” com o “Amém” — mesmo que me provem que essa desobediência cristã é pecado.

[Crônica IX/2026]

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Itália Pai Nosso Provérbios populares 

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