10 de janeiro de 2026

Remissão pela leitura: perigo de melhorar

Por José Carlos Sá

A biblioteca da cadeia dá opções de livros para todos os gostos ideológicos (Imagem gerada por IA Copilot / Edição BN JCarlos)

Li a notícia de que os advogados de defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso em uma cela da Polícia Federal em Brasília, solicitaram sua inclusão no programa de remição de pena pela leitura, previsto na Lei de Execução Penal.

Pelo programa, o detento que ler uma obra literária e entregar uma resenha dentro das regras estabelecidas tem direito ao desconto de dias na prisão. Assim, segundo o texto, se o ex-presidente ler e resenhar até 12 livros por ano, poderá reduzir sua pena de 27 anos e três meses em até 48 dias no período de 12 meses.

Curioso, fui conferir a lista de livros que a Secretaria de Educação do Distrito Federal disponibiliza para esse programa. São 52 obras, entre literatura brasileira, estrangeira, textos religiosos e filosóficos, organizados em ordem aparentemente aleatória (pelo menos não consegui identificar um critério claro).

Passei a relação ao meu assessor virtual, o amigo Iago, e pedi que classificasse o acervo segundo o que hoje se entende no Brasil como “direita”, “esquerda” e “centro”.

A conclusão foi a seguinte: 75% das obras são neutras, podendo ser lidas em diferentes chaves ideológicas. Já 12% foram classificadas como de direita, por reforçarem valores conservadores ou religiosos.

Entre os 13% (esse número 13 não é provocação, por favor) identificados como de esquerda, aparecem clássicos como Manifesto Comunista (Marx & Engels), Vidas Secas (Graciliano Ramos), Capitães da Areia (Jorge Amado), Quarto de Despejo (Carolina Maria de Jesus), Memórias do Cárcere (Graciliano Ramos), A Revolução dos Bichos (George Orwell) e O Quinze (Rachel de Queiroz – fase inicial).

Mas se o ex-presidente quiser escapar das tentações ideológicas de direita e esquerda, há opções que não fazem mal a ninguém. Por minha conta, indico: O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry; O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon; O Homem que Calculava, de Malba Tahan; As Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato; Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach; ou O Escaravelho do Diabo, de Lúcia Machado de Almeida (este último, confesso, fico em dúvida, pois o título pode causar espécie a pessoas terrivelmente evangélicas).

Falando por mim, com poucas exceções de obras cujo título não me agrada, eu encararia tranquilamente essa tarefa de leitura e sairia da cadeia mais sabido do que entrei.

[Crônica VIII/2026 – Texto publicado originalmente no Jornal Cool do Mundo – Vilhena (RO), edição de 10Jan26]