O dicionário nos ensina que “celebração é o ato ou efeito de celebrar, comemorar; festejar”, mas também “enaltecer, proclamar louvores: celebração da palavra de Deus”. E quando tudo isso se reúne em um encontro na casa de amigos, onde um grupo de Terno de Reis anuncia o nascimento de Jesus Cristo, ao lado de um presépio?
Foi essa a emoção que vivi neste sábado, na residência dos amigos Osmarina e Paulo Villalva: uma celebração em que o sentido de espiritualidade se sobrepunha ao de festejo. Ouvimos o grupo de Terno de Reis Estrela Luz, do bairro Trindade, em Florianópolis, com cânticos que anunciavam a chegada do Messias, ao lado do presépio que os anfitriões montam, com devoção, há 18 anos.
O Terno de Reis foi trazido ao Brasil pelos portugueses. Em Santa Catarina, especialmente no litoral, os povoadores açorianos mantiveram viva a tradição, que em Florianópolis resiste até hoje. Todos os anos, no dia 6 de janeiro — Dia de Reis — diversos grupos se encontram em cortejo pelo centro histórico da cidade.
O fundador
O grupo Estrela Luz nasceu no bairro da Trindade. Os dois integrantes mais antigos, Oraldo Ventura e Jairo Luz, não sabem precisar a data, apenas que tocam juntos há mais de 20 anos. A formação atual existe há quatro anos. O conjunto é composto por um fole, dois violões, uma rabeca e um surdo. As “pastoras” — o coro — acrescentam percussão: castanholas, chocalho e guizo.
Ao ser apresentado, mencionaram minha origem, e o senhor Oraldo, de 84 anos, (“manezinho da Trindade”) quis saber minha terra natal. Contou-me então que, há décadas, ele e um amigo viajaram a cavalo de Florianópolis a Belo Horizonte, em uma jornada de dois meses e meio, para participar de uma exposição agropecuária. Não guarda todos os detalhes da aventura, mas lembra de ter passado por Cruzília (MG), onde conheceu a origem dos cavalos da raça mangalarga marchador.
A porta-estandarte

Mariza, porta-estandarte do Grupo Estrela Luz, canta no coro e toca guizo e apito. Mais uma amizade conquistada (Foto JCarlos/editada por Google)
Conversei também com Mariza Taguada, integrante do grupo, com quem já havia me cruzado em outros eventos, mas sem nos apresentarmos. Paulista, professora e contadora de histórias, Mariza se integrou à cultura catarinense desde que chegou ao estado. “Já foi até benzedeira de boi-de-mamão”, recordou o senhor Oraldo.
No Estrela Luz, Mariza é porta-estandarte: conduz o grupo à frente, integra o coro, toca guizo e improvisa com um apito de madeira usado para chamar inhambu. Para o Banzeiros, fez uma pose especial — mais uma amizade que conquisto.
Os anfitriões
Osmarina e Paulo Villalva vivem de e para a cultura açoriana. Herança de família para Osmarina, e completamente incorporada pelo gaúcho Paulo. Há mais de 25 anos trabalham com cerâmica, recriando cenas de festas religiosas e populares, além de figuras ligadas ao folclore e à literatura florianopolitana. Tenho, de autoria deles, bruxas, bernunças e a imagem do poeta Cruz e Sousa.
Neste ano, nos festejos natalinos, além da inauguração do presépio em tamanho natural, realizada em 17 de dezembro, Osmarina e Paulo reuniram familiares e amigos para a apresentação do grupo de Terno de Reis. O encontro estava planejado há muito tempo, mas só agora se concretizou.
A alegria dos anfitriões era visível: ver a celebração acontecer em sua casa coroava o esforço de manter viva uma tradição religiosa que, aos poucos, vai se perdendo no moinho do tempo.
Agradeço a Osmarina, a Paulo e aos integrantes do Estrela Luz — além dos novos amigos que fiz naquela noite de sábado — por mais essa oportunidade de participar de uma verdadeira Celebração, como o dicionário define.
[Crônica IV/2026]









