
Imaginei os ladrões andando pelas ruas tranquilas do bairro carregando instrumentos de tortura (Imagem gerada por IA Copilot / Montagem BN_PPT JCarlos)
O rádio do carro falava para ninguém, até que uma chamada de notícia capturou minha atenção: “Presos, no centro da cidade, homens que roubaram o Museu da Inquisição de Belo Horizonte”.
Enquanto o repórter detalhava a ação criminosa, minha mente fez uma associação imediata com o roubo ocorrido no Museu do Louvre, em Paris, no dia 19 de outubro, quando ladrões levaram — diante de dezenas de visitantes — mais de US$102 milhões, ou cerca de R$551 milhões. Também me veio à memória, num lampejo, o furto das gravuras de Henri Matisse e Cândido Portinari na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo.
Na velocidade do pensamento, imaginei os homens — em plena luz do dia — carregando pelas ruas tranquilas do bairro Ouro Preto, na região da lagoa da Pampulha, peças que evocam uma fase sombria da Humanidade.
“Vi” um dos ladrões levando nas costas um sarcófago de ferro, forrado por estacas pontiagudas, conhecido como “Virgem de Nuremberg”; outro empurrava em um carrinho de mão a cadeira do interrogatório, igualmente coberta de pregos no assento, encosto, braços e pernas, onde o infeliz — candidato à fogueira — era sentado e amarrado. Um terceiro bandido (eu ainda não sabia quantos eram, mas minha imaginação completava a cena) transportava instrumentos de tortura menores, como a “pera da angústia”, o “extirpador de seios” e o “esmagador de joelhos”.
A matéria prosseguia no rádio: os suspeitos haviam pegado um ônibus e foram presos no centro da cidade, quando se dirigiam ao receptador. Eu aguardava, ansioso, o desfecho da notícia, para confirmar se meu palpite — criado ali, no calor da emoção — estava certo.
Mas veio a frustração. Eram ladrões sem noção da história, pois o produto do roubo revelou-se decepcionante: uma televisão, tubos de cobre e uma extensão elétrica.
Depois reclamam quando Nelson Rodrigues dizia que sofremos de “complexo de vira-latas”!
[Crônica I/2026]
