Acordei hoje pensando nas resoluções que preciso tomar para a virada. O ano de 2025 não foi ruim, mas também não foi bom. Poderia ter sido melhor se um monte de “se” tivesse acontecido do jeito que eu queria. Esqueci de combinar com Deus.
Nunca dei muita atenção às tradições e costumes que dizem ser obrigatórios na passagem do ano. Aliás, nunca dei atenção nenhuma. Um abraço de “feliz ano novo”, um brinde com champanhe Cereser e pronto.
Sempre que pude, fugi desses compromissos de réveillon. Quando era inevitável, lá estava eu com a maior cara de sono, esperando a contagem regressiva para tudo continuar exatamente como no ano velho: contas para pagar, desacertos para acertar, serviço para fazer, prazos a cumprir.
O tempo das pessoas comuns é diferente do tempo, por exemplo, do Judiciário, onde o recesso forense paralisa a contagem dos prazos. Na vida real não é assim: não importa se o último algarismo do ano mudou para o próximo número.
E é justamente nesse momento da passagem, quando o ponteiro sai do 59º minuto das 23 horas do dia 31 de dezembro e aponta para a 0 hora de 1º de janeiro, que dizem ser a hora de atrair coisas boas, pensar positivo, propor objetivos. É nesse instante mágico, de milésimos de segundos, que tudo se salva ou se perde.
Fui convidado para uma ceia de ano novo e o anfitrião — já me conhecendo — foi bem claro: eu teria que ir vestido com a cor determinada pelo meu “Mapa do Ano” (que eu nem sabia que existia). Ele já tinha feito os cálculos e conhecia qual era a cor de cada participante iria usar para manter o equilíbrio astral do ambiente. Além disso, todos teriam que se envolver seriamente nas tradições da virada.
É por isso que estou preocupado.
Fui ao Google pesquisar sobre o tal “Mapa do Ano” e, ao calcular a minha cor, deu vermelho. Eu simplesmente detesto vermelho. Sempre ouvi dizer que a cor certa para atravessar de um ano para outro era o branco — no máximo um amarelo-pálido. Antigamente, eram proibidos o preto, o marrom e o cinza-opaco. Eu, por minha conta, incluía o vermelho nessa lista.
Outras tradições da casa incluem comer doze uvas à meia-noite. Antigamente eu preferia as uvas já transformadas em vinho; hoje nem isso. Também não sou fã de romã, e ainda mandam comer aquela fruta sem graça.
Mas o pior que pode me acontecer é se incluírem lentilhas na ceia e eu tiver que comer uma colher sequer. Sou alérgico à leguminosa e, se colocar um pouquinho na boca, acabo com a festa: primeiro um ataque de urticária, depois uma diarreia que não vai deixar ninguém por perto.
Acho melhor não ir à festa e acompanhar a contagem regressiva pela internet, brindando com um copo efervescente de Sonrisal, fazendo as vezes do espumante. Será melhor para mim e para todo mundo.
[Crônica CCLXXXVI/2025]

