30 de dezembro de 2025

Relembrando o passado próximo e distante

Por José Carlos Sá

Fomos a Minas passar o Natal com a família, dar um beijo em mãe e, de quebra, aproveitar um passeio rápido por três cidades históricas e visitar exposições no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Foi uma verdadeira otimização do tempo — e não apenas como figura de linguagem, mas na prática.

As exposições eram: “Bonecos Giramundo”, grupo de teatro de bonecos formado há 55 anos e ainda em atividade; “Presépios de Minas em Mim”, com 70 presépios feitos de materiais como argila, crochê, bordados, fibras, madeira, cabaça, ferro e recicláveis, por artesãos de todo o estado; a 16ª Mostra Chama – Travessia das memórias: Arte, ancestralidade e movimento; e “GTO: De Divinópolis para o mundo”.

Visitamos Caeté e o distrito de Morro Vermelho — onde, segundo a história, “foi palco da primeira guerra civil do Brasil, da primeira eleição direta das Américas e da resistência aos exorbitantes impostos cobrados pelos portugueses”. Passamos também por Sabará e Santa Luzia, cidades de grande relevância histórica, todas na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

O Giramundo

Eu não conhecia pessoalmente o trabalho do Grupo Giramundo, teatro de bonecos indicado pelo meu sobrinho João, neto do meu irmão Paulo Roberto. O menino ficou tão entusiasmado ao visitar a mostra que me despertou a vontade de conhecê-la.

São 600 bonecos expostos, representando todas as fases da carreira do grupo. Bonecos belos, com personalidade própria, que dão vida a personagens da literatura, mitologia, histórias populares e também criações originais da imaginação fértil dos artistas.

Os presépios

A tradição dos presépios, como sabemos, nasceu com São Francisco. Na exposição, essa tradição cristã aparece reinterpretada de diversas formas, de acordo com o olhar de cada artesão. Cada região se faz presente: a argila do Vale do Jequitinhonha, a palha de milho de Patos de Minas — a “Capital Nacional do Milho” — e tantos outros materiais.

A diversidade de interpretações da cena bíblica do nascimento de Cristo é impressionante. Confesso que tive dificuldade em escolher poucas fotos para ilustrar este relato.

A Travessia das memórias

“Travessia das memórias: Arte, ancestralidade e movimento” é uma mostra coletiva de fim de semestre da Escola de Artes Visuais do Centro de Formação Artística e Tecnológica da Fundação Clóvis Salgado. A homenagem é ao pintor, escultor e desenhista Jorge dos Anjos, expoente da arte negra em Minas Gerais. Os trabalhos expostos são releituras de sua obra.

GTO

Geraldo Teles de Oliveira (GTO) foi um artesão autodidata em madeira, que iniciou a carreira reproduzindo uma obra sonhada. Desde que vi seu trabalho pela primeira vez, lá pela década de 1970, fiquei intrigado com sua habilidade de esculpir correntes na madeira. Não era uma só: muitas de suas peças traziam correntes, marca registrada, junto à repetição de figuras.

A exposição reúne obras de GTO, de seu filho Mário Teles e do neto Alex Teles, que mantêm viva a linha de trabalho do patriarca. A mostra é itinerante e começou por Divinópolis, terra natal da família.

Muito interessante.

O barroco mineiro

Visitar as igrejas de Caeté, Sabará e Santa Luzia é mergulhar na história de Minas Gerais, no auge da mineração do ouro que financiou grandes construções religiosas. Ali nasceu um estilo arquitetônico inspirado no barroco europeu, mas adaptado com materiais locais e mão de obra de artistas brasileiros — como Aleijadinho, que deu traços únicos às figuras e ornamentos.

Os altares, imagens e cenários religiosos impressionam pela riqueza dos detalhes e entalhes minuciosos na madeira. No Morro Vermelho, visitamos a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, construída em 1703. Curiosamente, não é tombada pelo Iphan e está fechada desde 2021.

Foi no adro dessa igreja que se realizou a primeira eleição das Américas, em dezembro de 1707, pelos moradores de Caeté e Sabará, dando início à Guerra dos Emboabas (1707–1709), conflito pelo direito de exploração das recém-descobertas jazidas de ouro na região das Minas.

Optei por postar aqui, apenas as fotos das fachadas dos templos. Vejam as semelhanças existentes entre seis das sete igrejas mostradas.

[Crônica CCLXXXV/2025]

Giramundo – Boneco do início do Grupo (Foto JCarlos)

Giramundo – Detalhe de personagem de um grupo folclórico de Congada (Foto JCarlos)

Giramundo – Montagem da peça Relações Naturais, de Qorpo Santo (Foto JCarlos)

Giramundo – O universo dos marionetes. O menino é de verdade (Foto JCarlos)

Presépio 1 – Meio mambembe – Tião Campos – Contagem (Foto JCarlos)

Presépio 2 – Confecção em palha de milho – Marias Artesãs – Patos de Minas (Foto JCarlos)

Presépio 3 – Com vira-latas – Alice e Augusto Ribeiro – Ponto dos Volantes -Vale do Jequitinhonha (Foto JCarlos)

Presépio 4 – Confecção estilo Abayomi – Márcia Rodrigues – Felício dos Santos – Vale do Jequitinhonha (Foto JCarlos)

Travessia 1 – Festa – Jorge dos Santos – 1984

Travessia 2 – Parte das obras expostas (Foto JCarlos)

Travessia 3 – O mar não se esquece – Sarah Elen – 2025 (Foto JCarlos)

Travessia 4 -Omo Oyá e a neta de minha avó – Ajúliasouza – 2025 (Foto JCarlos)

GTO 1 – Autorretrato, sem data (Foto JCarlos)

GTO 2 – Pirâmide das Rodas Vivas, sem data (Foto JCarlos)

GTO 3 – Corrente Casal de Sereias, sem data (Foto JCarlos)

1 – Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos – 1703 – Morro Vermelho – Caeté – Palco da primeira revolta contra os portugueses (Foto Marcela Ximenes)

 

2 – Igreja de Nossa Senhora de Nazaré – 1713 – Morro Vermelho – Caeté (Foto JCarlos)

3 – Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso – concluída em 1757 – Caeté (Foto JCarlos)

4 – Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição – 1720 – Sabará (Foto JCarlos)

5 – Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo – 1763 – Sabará (Foto JCarlos)

6 – Igreja de São Francisco – 1781 – Sabará (Foto JCarlos)

7 – Igreja do Santuário de Santa Luzia – 1774 – Santa Luzia (Foto JCarlos)