
Ouvindo no rádio votos de feliz natal de pessoas infelizes no natal (Imagem gerada por IA Firefly_Gemini / Edição BN PPT JCarlos
Rodávamos pelas estradas do interior do Paraná, na tarde de domingo, 21 de dezembro. O rádio estava sintonizado na Colinas FM, de Ibaiti, que transmitia o programa Estância Gaúcha, apresentado por Geomar e Adrelaine.
Comentei que os primeiros dezessete minutos haviam sido dedicados aos patrocinadores: os locutores liam uma sequência de mensagens em que os anunciantes desejavam “feliz natal” aos clientes e amigos.
Depois vieram os “alôres” aos ouvintes que enviavam mensagens de texto pelo WhatsApp, pedindo músicas. Os pedidos eram atendidos, mas as canções tocavam apenas pela metade. Algumas vezes, Adrelaine interrompia: “Essa música é boa, mas eu gosto mais de outra”, e trocava a escolhida pelo público por uma de sua preferência — também sem deixá-la tocar inteira.
Em seguida, incentivaram os ouvintes a enviarem mensagens de voz com votos de natal. As gravações eram colocadas no ar sem prévia escuta, e a interação ficava por conta de Adrelaine, que “conversava” com os áudios como se fossem ao vivo.
Foi então que surgiu um diálogo mais ou menos assim:
- Boa tarde, Adrelaine, boa tarde Geomar. Aqui é Helena, do Bairro Xis…
- Boa tarde, Helena! — respondeu a locutora, alegre.
- Esse natal vai ser duro. Fiz uma cirurgia no braço há 22 dias. Perdi meu pai, perdi minha mãe…
- Óh, que ruim… — o tom de voz mudou.
- Meu neto morreu, meu sobrinho morreu, minha irmã está de cadeira de rodas…
- Ah não!
- E o meu filho está preso…
- Puxa, Helena… sentimos muito suas perdas.
Aquilo que deveria ser uma mensagem de natal mergulhou o programa em um clima de tristeza. Logo depois, voltaram as mensagens comerciais, tocaram metade de outra música e seguiram com votos de “feliz natal” — mas nenhum deles carregava o peso da dor que dona Helena havia trazido.
Marcela comentou apenas que a ouvinte precisava desabafar, e a rádio ofereceu essa oportunidade. Nem todo mundo consegue ter um feliz natal todo ano. Alguns, talvez, nunca tenham.
[Crônica CCLXXXVI/2025]
