29 de dezembro de 2025

Tristeza sem fim

Por José Carlos Sá

Ouvindo no rádio votos de feliz natal de pessoas infelizes no natal (Imagem gerada por IA Firefly_Gemini / Edição BN PPT JCarlos

Rodávamos pelas estradas do interior do Paraná, na tarde de domingo, 21 de dezembro. O rádio estava sintonizado na Colinas FM, de Ibaiti, que transmitia o programa Estância Gaúcha, apresentado por Geomar e Adrelaine.

Comentei que os primeiros dezessete minutos haviam sido dedicados aos patrocinadores: os locutores liam uma sequência de mensagens em que os anunciantes desejavam “feliz natal” aos clientes e amigos.

Depois vieram os “alôres” aos ouvintes que enviavam mensagens de texto pelo WhatsApp, pedindo músicas. Os pedidos eram atendidos, mas as canções tocavam apenas pela metade. Algumas vezes, Adrelaine interrompia: “Essa música é boa, mas eu gosto mais de outra”, e trocava a escolhida pelo público por uma de sua preferência — também sem deixá-la tocar inteira.

Em seguida, incentivaram os ouvintes a enviarem mensagens de voz com votos de natal. As gravações eram colocadas no ar sem prévia escuta, e a interação ficava por conta de Adrelaine, que “conversava” com os áudios como se fossem ao vivo.

Foi então que surgiu um diálogo mais ou menos assim:

  • Boa tarde, Adrelaine, boa tarde Geomar. Aqui é Helena, do Bairro Xis…
  • Boa tarde, Helena! — respondeu a locutora, alegre.
  • Esse natal vai ser duro. Fiz uma cirurgia no braço há 22 dias. Perdi meu pai, perdi minha mãe…
  • Óh, que ruim… — o tom de voz mudou.
  • Meu neto morreu, meu sobrinho morreu, minha irmã está de cadeira de rodas…
  • Ah não!
  • E o meu filho está preso…
  • Puxa, Helena… sentimos muito suas perdas.

Aquilo que deveria ser uma mensagem de natal mergulhou o programa em um clima de tristeza. Logo depois, voltaram as mensagens comerciais, tocaram metade de outra música e seguiram com votos de “feliz natal” — mas nenhum deles carregava o peso da dor que dona Helena havia trazido.

Marcela comentou apenas que a ouvinte precisava desabafar, e a rádio ofereceu essa oportunidade. Nem todo mundo consegue ter um feliz natal todo ano. Alguns, talvez, nunca tenham.

[Crônica CCLXXXVI/2025]

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