20 de dezembro de 2025

José Carlos News e o Big Boss do pedaço

Por José Carlos Sá

Abri a porta do estúdio e ele estava lá: Geraldão, o Big Boss, meu ídolo (Imagem gerada por IA Copilot/Microsoft)

Há alguns dias contei aqui sobre um programa de rádio transmitido nas madrugadas pela Rádio Itatiaia, de Belo Horizonte. Nos comentários do post, meu amigo e ex-colega de trabalho Paulinho Mourão se lembrou de uma figura que foi fundamental para minha formação musical: Geraldo Ferreira, diretor da Rádio Cultura, que pertencia aos mesmos donos da Itatiaia — meu primeiro emprego como jornalista profissional.

Meu gosto musical — acredito que como o de todo mundo — nasceu ouvindo o que meus pais escutavam e cantavam. Com o tempo, fui rejeitando aquele repertório e construindo o meu próprio universo sonoro.

Cresci nos anos 1960/70, em pleno auge da Bossa Nova, do surgimento da Tropicália, da MPB e dos festivais de música na televisão. Era também a época das canções de protesto e, com o endurecimento da ditadura, das letras “cifradas”, em que se buscava decifrar sentidos ocultos nas mensagens.

Por indicação do meu irmão Paulo “Payto” Roberto e do amigo Klaus Peter “Pêta” Meyer (por onde andará?), passei a ouvir a Rádio Cultura. Aos sábados e domingos, ela apresentava programas com lançamentos internacionais. O destaque era o “Cash Box”, que trazia as músicas listadas no “Top (ou Hot, já não lembro) 100” da revista norte-americana Billboard.

Foi pela Cultura que conheci Led Zeppelin, Pink Floyd, Creedence Clearwater Revival, Queen, Black Sabbath, Deep Purple, Eagles, Aerosmith, Uriah Heep, Yes, Kiss, Raul Seixas, Belchior, Fagner, Secos e Molhados, Zé Ramalho (“láááá da Paraíba”), O Terço, Vímana, Os Mutantes… sem falar em Caetano, Gal, Chico, Nara Leão, Maria Bethânia, Clara Nunes, Gil, Toquinho e Vinícius, entre tantos outros.

(Abro parênteses.) Nesse período me afastei das músicas que meus pais ouviam, que eu já considerava “coisa de velho”. Mas acabei queimando a língua quando ouvi Gal, Caetano e Bethânia interpretando Lupicínio Rodrigues, Adelino Moreira, Ary Barroso, Luiz Gonzaga… Foi preciso repensar tudo. (Fecha parênteses.)

Quando comecei a trabalhar na Rádio Itatiaia, perguntei onde ficava a Cultura. Disseram que funcionava no porão do prédio. Sempre que passava diante da porta do estúdio, a caminho da cantina, sentia vontade de entrar e conhecer de perto aquela fonte da trilha sonora da minha adolescência.

Mas como entrar assim, na cara dura? O que dizer? A timidez ainda me dominava. Só que o universo conspira — já dizia o mago Paulo Coelho — e acabei chamado para cobrir as férias de um colega que redigia os boletins de notícias da Rádio Cultura, no período da noite, quando estava no ar o programa Ritmos da Noite, apresentado pelo meu ídolo Geraldo Ferreira. “Geraldão, o Big Boss do pedaço”, como os outros locutores o chamavam.

Redigi os boletins e desci as escadas com as pernas tremendo. Bati na porta, ninguém respondeu, e fui entrando. O ambiente estava escuro, iluminado apenas pela luz que escapava do retângulo de vidro da porta do estúdio. Abri devagar e mostrei os papéis.

Era o Geraldão quem estava no ar. Ele fez sinal para que eu esperasse e, ao terminar de anunciar o bloco de músicas, estendeu a mão e perguntou o que eu precisava.

Emocionado — acho que até gaguejei — expliquei que estava cobrindo as férias do colega e que ficaria responsável pelos boletins durante o próximo mês. Respirei fundo e contei rapidamente minha ligação com a Rádio Cultura e a emoção daquele momento.

Geraldão, com seus mais de dois metros de altura, contornou a mesa de som e me deu um abraço forte.

A partir daí, sempre que eu entrava no estúdio com os boletins, era anunciado — isso mesmo, anunciado! — assim: “Acaba de chegar o José Carlos News, com as últimas informações para o ouvinte da Rádio Cultura.”

Viramos amigos. Ele sempre separava para mim discos promocionais (o primeiro LP do Belchior), camisetas e ingressos para shows.

Infelizmente perdi o contato com Geraldo e, depois, já em Porto Velho, também com a Rádio Cultura, que foi vendida e nem sei se ainda existe.

Não importa. Guardo na memória esses bons momentos, que me acompanharão até que o “alemão” chegue apagando tudo.

[Crônica CCLXXXIII/2025]