A família já teve posses e muito dinheiro, mas hoje sobrevive apenas da renda dos aluguéis de um casarão convertido em quitinetes e de algumas salas comerciais em um condomínio.
Apesar da decadência financeira, a pose e as manias herdadas dos tempos de fausto permanecem nos dois últimos descendentes da linhagem. Mais na mãe — que viveu o esplendor da riqueza — do que no filho, que cresceu ouvindo frases iniciadas por “no tempo em que nossa família…”. Desde pequeno, foi acostumado a manter distância “do povo”, sem jamais compreender o verdadeiro sentido dessa apartação.
O filho também aprendeu a nunca contrariar a mãe. Por isso, obedeceu quando ela determinou que se submetesse à coleta de sêmen, congelado e armazenado em uma empresa especializada. Em seguida, foi obrigado a realizar uma vasectomia, com garantia por escrito de que seria irreversível.
A justificativa da mãe, confidenciada a uma amiga, era simples: se o rapaz tivesse alguma aventura fora de seu controle, não haveria risco de uma gravidez indesejada.
— Mas você não quer ser avó?
— Quem disse que não quero? Quero muito! Mas a minha nora terá de preencher certos requisitos para integrar nossa família. Quando a “pretendente” for aprovada, casada sob regime de separação de bens e cláusulas que a impeçam de tocar em nosso patrimônio, então iremos ao banco de sêmen. Ela engravidará do meu filho e eu serei a mais feliz das avós.
Esse era o plano. Para sustentá-lo, pagavam uma mensalidade de mil reais à empresa responsável pela guarda do material genético. Até que chegou uma carta: os custos seriam reajustados, pois a inflação havia encarecido os insumos da manutenção.
O novo valor ultrapassa a capacidade do orçamento familiar. Assim, a tão zelada “pureza genética” corre o risco de se perder, junto com a máscara de grandeza que a família insiste em usar há décadas. O neto sonhado pode nunca existir.
E resta concluir, com ironia amarga, que o orgulho — por mais que se tente preservá-lo — não paga as contas.
[Crônica CCLXXXII/2025]

