Desde que vi os terroristas – ops, combatentes – do Hamas usando tarjas de identificação, fiquei com vontade de contar algumas histórias sobre crachás, vividas por mim ou presenciadas ao longo da vida.
Nunca tinha refletido muito sobre o assunto, mas ao escrever esta crônica surgiu a curiosidade: afinal, qual a origem do crachá? Deixando de lado explicações linguísticas sobre o nome, fui direto à invenção em si. Há divergências: alguns dizem que vem da Antiguidade, quando soldados escreviam seus nomes em pedaços de madeira e os prendiam ao braço para serem identificados em caso de morte em batalha; outros defendem que surgiu na Era da Industrialização.

Anonymous Smith, empregado da Tampa Shipbuilding Company, Incorporated – Tampa – Florida.
A empreza facricava navios de guerra e suprimentos para o esforço de guerra (Reprodução)
O que sei, com certeza, é que o crachá hoje é usado em quase 90% das empresas para identificar seus empregados, tanto internamente quanto externamente.
Como jornalista, em Porto Velho, o crachá que me identificava como repórter do jornal Alto Madeira me livrou de duas surras – ambas por ter sido confundido com colegas de outras empresas de comunicação da capital de Rondônia.
Uma dessas “pisas” evitadas foi durante a greve da Polícia Militar; a outra, em uma manifestação de garimpeiros que trabalhavam (e ainda trabalham) ilegalmente no rio Madeira. Tudo isso aconteceu no início da década de 1990.
Já nos primeiros dias dos anos 2000, participei de uma entrevista coletiva após o controle de uma rebelião no presídio Urso Branco, em Porto Velho. Eu estava lá na organização do evento, comandado por uma comissão do Ministério da Justiça.
Um dos líderes do motim foi levado para falar com a imprensa e, antes de responder qualquer pergunta, olhou em volta e disparou: — Tem alguém do Diário da Amazônia aqui? Quero que ele prove o que anda escrevendo sobre mim.
O repórter-fotográfico Jota Gomes, funcionário do Grupo SGC, estava mais afastado. Num gesto digno de mágico de circo, fez desaparecer o crachá que o identificava. Só não conseguiu esconder a vermelhidão da pele, que o entregava como “culpado”.
Voltando ao Hamas: há algum tempo vi fotos de uma das primeiras devoluções de reféns, em 25 de janeiro deste ano. Nas reportagens que li e assisti, chamou-me a atenção ver os militantes com rostos cobertos, luvas nas mãos e, paradoxalmente, vistosos crachás de identificação pendurados no peito.
Fico imaginando como seria a checagem “cara–crachá”, como dizia Severino, o porteiro trapalhão vivido por Paulo Silvino, lá no esconderijo dos “hómi”.
[Crônica CCLXXVIII/2025]

