13 de dezembro de 2025

O tempo entre dois papéis

Por José Carlos Sá

ℎ ℎ (Imagem gerada por IA Copilot)

Do realejo da infância à caixa de mensagens da velhice

Eu ainda era menino quando, passeando com minha mãe pela Praça Tiradentes, no centro de Teófilo Otoni — onde hoje repousa uma locomotiva da antiga Estrada de Ferro Bahia e Minas — vi pela primeira vez o “homem do realejo”. Era um senhor idoso, de roupas já gastas pelo tempo e pelo intemperismo.

Ao seu lado havia uma caixa curiosa: na parte superior, uma gaiola de metal com um periquito adestrado; abaixo, um compartimento em forma de gaveta. Toda a estrutura se apoiava em um pedestal de madeira, comprido e redondo, semelhante a um grosso cabo de vassoura.

Para atrair fregueses e curiosos, o homem girava uma pequena manivela na lateral da caixa, produzindo um som mecânico e monocórdio, que se fazia passar por música. Mediante o pagamento de uma quantia — que não sei precisar — ele abria a gaiola e a gavetinha inferior. O pássaro, então, escolhia com o bico um cartãozinho colorido, dobrado, onde estava impressa a “sorte” do cliente.

Depois daquele dia, revi o homem do realejo muitas vezes. Eu estudava perto da praça e a casa de minha avó, onde ficava durante a semana, também era próxima. Sempre que podia, parava diante dele, ouvindo aquela música repetitiva e observando o periquito retirar a sorte.

Nas minhas fantasias infantis, atribuía ao pássaro dons mágicos: o poder de adivinhar o destino das pessoas. Imaginava como teria adquirido tal habilidade — que, afinal, não era tão grande — já que “trabalhava” para o homem do realejo e permanecia preso, sem necessidade, na gaiola.

Sorte sem realejo

Dias atrás, fui ao posto de saúde do bairro em busca de um remédio de uso contínuo fornecido pelo SUS. Na janelinha da farmácia, deparei-me com uma caixa de papelão decorada, trazendo os dizeres: “Retire sua mensagem”.

A caixa sempre esteve ali, desde minha primeira visita à UBS, há alguns anos, quando nos mudamos para São José e fui fazer meu cadastro. Eu a via, mas nunca me interessei em explorar seu interior — até o dia em que resolvi pegar um dos papeizinhos dobrados.

“Eu nunca falhei. Eu apenas encontrei 10 mil maneiras que não funcionam.” Li e reli aquele pedaço de papel. Depois soube que a frase era de Thomas Edison, inventor da lâmpada elétrica e de outros 2.332 produtos. Fiquei em dúvida se aquilo deveria me incentivar ou desanimar.

Desde então, todas as vezes que vou ao postinho, a primeira coisa que faço, após retirar a senha de atendimento, é buscar minha “pílula de sabedoria”, como costumo justificar mentalmente.

A caixa-realejo continuou distribuindo mensagens, mas apenas duas ficaram gravadas em minha memória: “Procure bênção nas situações difíceis” (autor desconhecido) e “Não tenho medo de tempestades, porque estou aprendendo a navegar no meu navio”, frase atribuída à escritora Louisa May Alcott.

Ao escrever estas linhas, percebo a volta de 360º que dou na vida: do realejo real da infância ao realejo imaginário da velhice.

[Crônica CCLXXVII/2025]