07 de dezembro de 2025

Sintonia da madrugada

Por José Carlos Sá

Entre poemas, telefonemas solitários e até recados sombrios, uma memória da madrugada na Rádio Itatiaia (Imagem criada pelo Iago, meu assistente IA Copilot)

Em 1982, quando fui trabalhar na Rádio Itatiaia de Belo Horizonte, meu turno era das 22h às 2h da manhã. Na redação ficava apenas eu; no estúdio, o técnico e o locutor. À meia-noite começava um programa cujo apresentador não consigo lembrar o nome nem por hipnose.

O sonoplasta era o Sebastião, um sujeito de poucas palavras. Dizia apenas um “boa noite” ao chegar e, depois disso, só se ouvia sua voz quando encaminhava alguma ligação telefônica — o que era raro.

O programa tocava músicas românticas e abria sempre com a leitura de um poema de amor. Não sei se eram de autoria do apresentador ou copiados de algum poeta. Lembro que a leitura era feita a partir de um caderno grosso, manuscrito, com flores recortadas e coladas nas páginas, emoldurando os versos.

Depois vinham as saudações aos ouvintes, o anúncio das músicas do primeiro bloco e o número do telefone do estúdio. Enquanto Sebastião colocava os LPs e os anúncios, o telefone não parava de tocar durante toda a madrugada.

A central telefônica da rádio, que ficava no automático após as 20h, encaminhava as ligações feitas para o número geral da emissora. Primeiro para o estúdio; se ocupado, seguia para a técnica, depois para o Departamento de Esportes e, por fim, para a redação de Jornalismo — onde eu estava.

Muitas vezes, concentrado na editoria de Nacional e Internacional do Jornal da Itatiaia, o telefone tocava. Eram ouvintes do programa da madrugada, cujas chamadas “caíam” na redação. Eu anotava nome e bairro e levava ao estúdio, para que o apresentador enviasse o “alô” ao radiouvinte.

Havia muitos telefonemas de pessoas solitárias, em casa ou no trabalho, que buscavam atenção de alguém — mesmo que fosse apenas uma voz do outro lado da linha. Outros iam além: ligavam em busca de companhia física e convidavam quem atendesse o telefone para uma visita após o programa.

Os fãs também mandavam pizzas, bolos, biscoitos caseiros, bombons… e eu era sempre chamado para participar da comilança.

Uma noite, atendi ao telefone já com papel e caneta na mão, pronto para anotar o nome do ouvinte. Mas a voz disse: — Daqui a uma hora vamos “desovar um presunto” na avenida Raja Gabaglia. Se quiser, pode ir conferir. — Quem está falando? — perguntei, inocente. — “Quem está falando?” Hahaha… Você está brincando? — e desligou.

Para que se entenda: naquela época havia em Belo Horizonte um grupo de extermínio conhecido pela imprensa como “esquadrão da morte”. Eles costumavam avisar jornalistas onde deixariam os corpos — “desovar o presunto” — e eu recebi um desses recados.

Essa lembrança voltou à tona por causa de uma frase dita pela Marcela, que continha as palavras “sintonia da madrugada”. Foi uma longa viagem, não?

[Crônica CCLXIX/2025]

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avenida Raja Gabaglia Belo Horizonte Esquadrão da Morte Marcela Ximenes Memórias Rádio Itatiaia 

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