O padrinho entregou aos compadres, ainda ao lado da pia batismal, uma caixinha contendo um anel, que deveria ser dado ao afilhado quando este completasse 15 anos. Depois do batizado, sumiu.
O pai do menino o havia convidado para ser padrinho enquanto bebiam na Venda do Orsino, já bastantes altos. Não se conheciam até então. Do homem, só ficou o nome registrado no Livro de Batismo da igreja: “Vanildo Sunção”. É “Sunção” mesmo — o auxiliar do padre pediu que ele soletrasse o sobrenome, e ele o fez, com dificuldade, mas fez.
O menino fez quinze anos e recebeu a caixinha, já amarelada pelo tempo, com as arestas amassadas e um ou outro buraco de traça. Dentro, embrulhado num chumaço de algodão, um anel de ouro, com uma pedra preta e, sobre ela, a imagem de São Jorge em prata.
— Esse foi o presente que o seu padrinho, o compadre… Como é o nome dele, bem? [Não lembro mais!] É o presente que ele pediu pra entregar a você.
— Que maneiro, mãe! — disse, colocando o anel no dedo anelar. Nunca mais tirou.
Por causa da efígie do santo, passou a ser chamado de “Jorge”. E era conhecido na comunidade pelo medo que impunha. Tudo que acontecia ali precisava de seu conhecimento e consentimento.
Os negócios ilegais geravam dinheiro e poder. Jorge se preparava para ampliar sua área de influência. Importou armas e mandou treinar soldados para uma incursão surpresa na comunidade vizinha.
No dia D, tudo deu errado. A cavalaria de Jorge foi recebida à bala. O inimigo, mesmo pego de surpresa, reagiu e botou os invasores pra correr. Jorge, que comandava uma das alas, ficou sozinho, encurralado num beco. Sem munição, sem capangas, foi capturado e levado em cortejo até o bunker do chefão.
Com as mãos amarradas nas costas e o rosto voltado para a parede, Jorge sentiu o cheiro de uísque que exalava do rival, que comemorava antecipadamente a nova área que passaria a dominar.
— Você é o Jorge que queria ser o rei de tudo? Perdeu, vagabundo. Hoje estou alegre e não vou perder tempo com você.
Apontou a pistola para a cabeça do rival e virou o rosto para o sangue não salpicar seus olhos, apertando o gatilho ao mesmo tempo. Foi nesse movimento que viu o anel de ouro, com a pedra preta e a imagem de São Jorge em prata.
— Porra! Era o meu afilhado!
[Crônica CCLXV/2025]

