Cheguei a uma fase da vida que chamam de “Idade do Condor”: com dor aqui, com dor ali e com dor lá também, onde você está pensando. Já ouvi uma pessoa otimista dizer que, quando você acorda sentindo dores, é sinal de que “ainda” está vivo. Isso não me consola.
Em dias assim, logo ao despertar, o peso dos anos de descuido com a saúde vem acompanhado de uma sensação de incômodo, de que está faltando ou sobrando alguma coisa. Passo o dia meio macambúzio e sorumbático, de mau humor, procurando alguma coisa para fazer e deixar que as dores da idade passem por elas próprias.
Para esperar a Marcela, que fazia umas compras, me sentei na praça de alimentação do supermercado Bistek da avenida das Torres, aqui em São José. Naquela hora o local estava vazio, pois era sábado de manhã e as lanchonetes e o restaurante ainda estavam fechados. Além de mim, só mais um menino mexendo no celular do outro lado do espaço e uma senhora fazendo a limpeza do local.
Procurei uma mesa de onde pudesse ver os dois acessos do supermercado e fiquei atento à movimentação da faxineira, para sair dali quando ela fosse limpar onde eu ocupava.
Quando ela se aproximou com o carrinho de vassouras, rodos, esfregões e demais acessórios de limpeza, perguntei onde eu poderia ficar sem atrapalhar o seu serviço. O diálogo foi assim:
— O senhor pode ficar onde quiser, que nunca vai me atrapalhar… Pode continuar aí mesmo. Vou passar esse produto [e me mostrou um líquido cor-de-rosa, levemente perfumado]; não é tóxico e não vai fazer o senhor tossir.
— Muito obrigado.
— Eu trabalho no Bistek há 13 anos, desde que me aposentei. Hoje tenho 80 anos… Temos que trabalhar pela satisfação do cliente, pois ele é que nos sustenta.
— Muito obrigado, repeti, sem ter mais o que dizer.
— A minha função aqui é essa: fazer a limpeza, deixar tudo limpinho. Trabalho com alegria, agradecendo a Deus por poder trabalhar e, depois, quando chego em casa cansada, poder tomar a minha cervejinha.
— Qual o nome da senhora? — Meu nome é Maria. Como o senhor vê, gosto de trabalhar e de conversar. [Ela não parou o que fazia enquanto limpava as mesas próximas e passava a vassoura sob elas.] Eu só não gosto do verão… Quando chega o verão fica mais difícil para mim, nesse trabalho. Mas é só. Só isso que me aborrece. O resto do tempo eu agradeço.
Uma pessoa chamou dona Maria para limpar um lugar específico e, quando ela estava voltando para continuar a conversa comigo, a Marcela apareceu. Eu me levantei e fui na direção da minha nova “amiga” para me despedir.
— Até outro dia, dona Maria. Foi um prazer conversar com a senhora. Isso me deu ânimo!
— Até logo. Que Deus o acompanhe e lhe dê saúde.
E passei o sábado sem reclamar de mais nada.
[Crônica CCLXIII/2025]

