Chegou às minhas mãos via Whatsapp, nesta madrugada de sábado (o relógio marcava 5h53), a terceira edição do Jornal Cool do Mundo, um noticioso editado pelo jornalista e escritor Júlio Olivar, a quem tenho o prazer de chamar de amigo.
A hora do recebimento me surpreendeu, pois a redação do hebdomadário fica em Rondônia, com o fuso horário de uma hora a menos em relação a Brasília. Por isso, suponho que o responsável pela expedição estava de sobreaviso, ansioso, esperando os primeiros sinais do nascer do dia para disparar o noticioso aos assinantes.
O jornal tem como foco principal a cidade de Vilhena, localizada no sul do Estado de Rondônia, onde uma parte considerável da população tem origem nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina — com representantes de outras unidades da Federação.
A temática do Cool do Mundo é variada, com assuntos ligados à história, à política local, estadual e federal. Como em todo bom jornal de cidade do interior, há a coluna da fofoca que chancela o disse-me-disse, quando o que era boato passa a ser oficial, pois “deu no jornal”. Há também a inevitável página policial, com os acontecimentos que mexeram com a sociedade local. Por uma deferência do editor, há uma colaboração minha nesta edição, onde conto algumas das experiências que vivi em Vilhena há muitos anos.
Uma característica mantida desde o número de estreia é o destaque para pessoas simples que foram coadjuvantes da história oficial. Aquele anônimo que deu sua contribuição para que um fato memorável acontecesse, mas que não teve o nome registrado. O editor do jornal, Júlio Olivar, é especialista nesse resgate de gente que está no ostracismo e que merece agradecimentos.
Também me chamou atenção o editorial com o título “Vilhena: uma cidade sem espelho”, que apela aos vilhenenses para que se unam pelo bem de todos, valorizem as coisas locais, a história, o pioneirismo do lugar — que nasceu de uma estação telegráfica implantada pela Comissão Rondon — e reforcem a autoestima dos conterrâneos:

Foram escolhidas as personagen de Cervantes Dom Quixote e Sancho Pança como símbolo do Jornal Cool do Mundo, porém com os meios de locomoção atualizados. Rocinante e Rucio foram trocados por uma bicicleta e um skate, respectivamente. Mas a luta contra os moinhos de vento continua (Reprodução)
“Vilhena não se enxerga. Não se reconhece. Não se valoriza. E quem não se vê não se projeta. A cidade cresce em números, mas não em consciência.”
O apelo ao pertencimento (não gosto dessa palavra, mas é o termo mais justo para a ocasião) me fez lembrar de outra situação em que houve o chamamento para que esse vínculo dos moradores com a cidade fosse fortalecido.
Quando se aproximavam as eleições de 1996, o então prefeito de Colorado do Oeste, Melki Donadon, anunciou a intenção de mudar seu domicílio eleitoral e disputar a prefeitura de Vilhena. E não ficou só na ameaça: incentivou seus correligionários e cabos eleitorais a também se mudarem para a “Cidade Clima da Amazônia”.
A sociedade vilhenense, representada por seus líderes empresariais e políticos, fez que iria resistir, impedir que um “estrangeiro” tomasse o Paço Municipal. Mas, ao invés de se unir, cada grupo lançou e apoiou um candidato diferente. Melki Donadon venceu as eleições e iniciou uma quase oligarquia do clã Donadon em Vilhena — que ainda não terminou.
A História é mestra, e precisamos prestar atenção às suas lições para não errar de novo.
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[Crônica CCLXII/2025]

