“Na voz de Nelson” era como os crooners das antigas orquestras e bandas anunciavam as músicas que iriam cantar. Ou seja, interpretavam as canções imitando o tom grave e potente da voz do cantor Nelson Gonçalves, que fez sucesso no país entre as décadas de 1940 e início de 1970.
Meu pai era um “crooner de chuveiro” e tomava banho interpretando os sucessos de Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Anísio Silva, Trio Irakitan, Orlando Dias, alguma coisa de Vicente Celestino — e mais alguns que não me lembro, pois eu era menino. Todas cantadas na voz do artista que as gravou.
Ontem à tarde, não sei como nem porquê, comecei a ‘psicocantar’ — uma espécie de psicografia verbal — “Pra machucar meu coração”, que eu nem sabia ter memorizado por completo, nem quem era o autor.
Depois da performance, disse à Marcela que aprendi a música ouvindo meu pai cantá-la no chuveiro. Fui então pesquisar sobre a canção.
“Pra machucar meu coração” é uma composição de Ary Barroso, de 1943, e foi gravada naquele ano pelo cantor Déo (nome verdadeiro: Ferjalla Rizkalla), fazendo sucesso. Nelson Gonçalves a gravaria depois, e a música tocaria bastante no rádio.
Como sempre faço nesse tipo de pesquisa, ouvi diversas versões da música até enjoar — na ordem de audição sugerida pelo YouTube: Nelson Gonçalves, Stan Getz e João Gilberto, Nana Caymmi, Gal Costa, Rosa Passos e Lula Galvão, Tom Jobim e Gal Costa, Ary Barroso, Elis Regina, Tiê e Toquinho, Elizeth Cardoso, Alba Armengou (espanhola), Ney Matogrosso e Leo Gandelman. Para finalizar, ouvi a gravação original, com o Déo.
Lembrando da música, lembro também do meu pai — que está sempre presente comigo, até porque herdei o nome e muitas manias dele.
A propósito, “Pra machucar meu coração” é aquela assim: Tá fazendo um ano e meio, amor / Que o nosso lar desmoronou / Meu sabiá, meu violão / E uma cruel desilusão / Foi tudo que ficou, / ficou / Pra machucar meu coração…
[Crônica CCLXI/2025]

