Nos livros de história infantil há vários casos de reis e sultões que saem dos palácios disfarçados para conviver com os súditos, passando-se por pobres. O tema já foi argumento de inúmeros filmes que emocionaram o público com a “lição de vida inesperada” — mas que, ao final, sempre voltam à boa vida de antes. Há também quem se finja de milionário, e os alpinistas sociais que se tornam ricos da noite para o dia e fazem da ostentação sua principal característica.
Fiz esse preâmbulo todo para comentar a história de um homem identificado pela reportagem do portal South China Morning Post apenas como “S”. Ele é um aposentado japonês que ganhou um prêmio na loteria no valor de 600 milhões de ienes — o equivalente a R$ 20.382.984,60 na cotação de hoje. A renda familiar dele é de 300 mil ienes (R$ 10.550,00).
Quando soube que havia ganhado a mega-sena japonesa, S não contou nada em casa e passou a viver uma vida paralela. Segundo o jornal chinês: “Ele gastou uma fortuna em um carro de luxo, reservou várias estadias em resorts de águas termais sofisticados e viajou por todo o Japão, gastando 18 milhões de ienes [R$614 mil] em apenas seis meses.”
O segredo da nova condição era para evitar que sua esposa — extremamente pão-dura (“avarenta”, no texto original) — o impedisse de gastar a grana. Segundo o milionário secreto, desde que se casaram, a mulher o proibiu de beber cerveja e de trocar o carro, que já é bastante antigo.

S reuniu a família para dizer que ganhou na loteria, mas só uma merreca! (Imagem criada por Iago, meu assistente IA Copilot/Microsoft)
Para usufruir, sozinho, a vida de novo rico, S vai de metrô até o estacionamento onde guarda o carrão novo e afastou-se dos antigos amigos. Mas, em uma dessas viagens, percebeu que a maioria dos outros turistas era formada por casais com filhos — e se lembrou da própria família. Ao mesmo tempo, afloraram as recordações do pai, que morreu sozinho, após um divórcio e a falência. Logo percebeu que a melancolia que estava experimentando era consequência daquele dinheiro ganho fácil — e que ele estava usufruindo sozinho.
Resolveu mudar a situação. Chegou em casa, reuniu a esposa e os dois filhos e contou que havia ganhado na loteria um prêmio de cinco milhões de ienes (R$ 170.787,20), que seriam usados na reforma da residência. Também fez um seguro, nomeando a esposa e os filhos como beneficiários, esperando “que o dinheiro proporcione segurança à sua família após sua morte.”
E S continuou a viver secretamente a vida de milionário — agora sem remorso algum.
[Crônica CCLX/2025]

